Nick Drake - Pink Moon (1972)
- Bruno Fernandes

- 18 de fev. de 2021
- 3 min de leitura
A história têm o poder de redimir até o mais recôndito e esquecido dos artistas. É sempre uma pena, quando eles não têm o privilégio de ver como sua obra é importante e como mudaria a vida das pessoas nas décadas e séculos que se seguiriam. Um desses tesouros guardados do tempo é o cantor/compositor britânico Nick Drake.
O disco escolhido para apresentar sua obra, e que futuramente se tornaria seu cartão de visita, é o "Pink Moon". Gravado em duas sessões de duas horas, sempre em alta noite, Drake dispensou sua banda de apoio e despiu suas músicas que integrariam seu terceiro disco, tendo apenas o vestuário perene do seu exímio violão e a produção delicada impressa pelo produtor John Wood. Ele tinha apenas 24 anos na época. Ele morreria apenas 2 anos depois, devido a uma overdose de antidepressivos.

Em 1972, a música folk ainda estava em um dos seus auges em rentabilidade, mas Drake não desfrutava dessa temporada. Extremamente tímido e sofrendo de uma forma grava de depressão, ele não conseguia sair em turnê, o que dificultava sua divulgação. Além disso, a mídia e a massa rejeitaram seus discos, por acharem "difíceis demais" pra se relacionar. Álbuns que, futuramente, influenciariam gerações de grandes compositores, como Kate Bush, Elliot Smith, Robert Smith (vocalista do The Cure), Peter Bucks (do R.E.M.), Paul Weller (do Black Crowes) e muitos outros.
A capa do disco foi concebida por Michael Trevithick num estilo surrealista próximo ao do pintor Salvador Dalí. Com menos de 30 minutos, Drake manejou as 11 faixas do disco de forma em que elas soubessem exatamente quando e como acabar, mantendo apenas o que fosse necessário delas, em termos de agradabilidade e poesia. Não durar mais do que o que precisa durar.
"I saw it written and I saw it say
Pink moon is on its way
And none of you stand so tall
Pink moon gonna get ye all
It's a pink moon
Yea, it's a pink moon"
Com esses icônicos versos, Nick Drake gravaria para sempre na história a faixa título, Pink Moon. Conduzida apenas por um violão e singelas intromissões de um piano, a faixa fala de um evento tão belo e tão fora do nosso cotidiano. Quem, com suas ocupadas e breves vidas, pararia para prestar atenção a uma "lua rosa"? Da mesma forma, quem se compararia a sua beleza?
Em "Place To Be" o cantor fala sobre se sentir inadequado, referente as expectativas dos outros e dele mesmo. Suas insegurança e medos, e como se sente em frente ao mundo. Note os comoventes versos abaixo:
"E eu era verde (inexperiente), mais verde que a colina. Aonde flores crescem e o sol ainda brilha. Agora eu estou mais escuro que o mais fundo dos mares. Apenas me segure, me dê um lugar pra ficar"
A suave condução de "Roads" através do seu violão dedilhado nos leva pra um passeio em um vibrante verso:
"Você pode dizer que o sol está brilhando se realmente quiser. Eu posso ver a lua e ela parece tão clara. Você pode pegar a estrada que te leva às estrelas agora. Eu posso escolher a estrada que me verá através"
A música nos leva a ponderar profundamente nas nossas percepções e escolhas na vida, e os caminhos aos quais elas nos levam. O que casa perfeitamente com sua sucessora, "Wich Will" onde o compositor nos questiona: "Qual vontade você atenderá?"
Ao longo de um minuto e meio, "Horn" nos presenteia com uma instrumental triste e solitária, que abriria caminho para a faixa mais longa do disco, a desoladora "Things Behind The Sun", e seus versos cravejados de uma inquietação enorme, a busca para entender seu lugar no mundo e a si mesmo. "Não seja tímido, você vai aprender a voar. E ver o sol, quando o dia acabar".
A vibrante melodia de "Know" arquiteta em inferências e contestações sobre o relacionamento de Drake com as pessoas:
"Saiba que eu te amo
Saiba que eu não me importo
Saiba que eu te vejo
Saiba que eu não estou lá"
"Parasite", "Free Ride" e "Harvest Breed" talvez sejam as músicas mais sombrias e cristalinamente honestas do disco, onde o cantor fala sobre como se sente "um verme" no mundo. São verdadeiros retratos de como a depressão remove o amor próprio de alguém.
Por fim, o disco termina com "From The Morning", a música mais luminosa e esperançosa até então, onde o cantor fala sobre coisas da vida que ainda considera como belas e significativas.
"Pink Moon" resiste a prova do tempo e é essencialmente um dos melhores álbuns de todos os tempos, com elementos significativos para que a vertente mais experimental do Folk pudesse se desenvolver. É realmente uma pena o próprio Nick Drake não poder ver o quanto sua "Lua Rosa" brilha e encanta gerações hoje.



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