Dua Lipa - Future Nostalgia (2020)
- Bruno Fernandes

- 25 de fev. de 2021
- 5 min de leitura
No período que abrangeu os anos entre 2006 e 2015, o mercado fonográfico viveu um período inédito e emocionante, onde pela primeira vez na história houve um volume tão grande de mulheres proeminentes no mundo da música e no topo dos charts simultaneamente, um momento que certamente será referenciado nos futuros livros de história da música, por seu desenvolvimento ímpar. Entretanto, por algum motivo, de 2016 em diante houve uma ruptura nesta onda, e muitas das artistas pop femininas passaram a ter grande dificuldade em emplacar hits ou apresentar álbuns que fossem devidamente apreciados como "obra". Enquanto no começo da década tivemos nomes como Rihanna, Lady Gaga e Katy Perry se tornando, não só artistas do primeiro escalão, mas fazendo história, a segunda metade da década viu a maioria esmagadora dos artistas que surgiram a partir de 2016 performarem como artistas de segunda ou terceira categoria (deixando bem claro que isso é em termos de mercantibilidade, percepção popular), como Bebe Rexha, Halsey, Zara Larsson e, sim, Dua Lipa.

É aí, exatamente neste ponto, que a cantora britânica Dua Lipa e o disco Future Nostalgia se destacam. Veja bem, a esta altura, Dua Lipa já tinha uma série de hits mundiais, como 'New Rules' e 'One Kiss', 2 Grammy Awards e estava criando expectativas para seu segundo álbum. O ponto em questão é: ter alguns hits diferenciaria ela das outras aspirantes a estrelas do momento? Seria apenas uma hitmaker passageira? Ou estaria disposta a tentar algo mais? A fazer algo pelo qual poderia ser lembrada? Essa coragem foi o que a fez ser diferente e lançar algo como o "Future Nostalgia".
Com a produção assinada por nomes como Jeff Bhasker, Ian Kirkpatrick, Stuart Price, Koz e The Monstezs & Strangerz, Dua Lipa entrega um álbum de dance/disco como não víamos a muito tempo, unindo o melhor do "pop nostálgico" com a produção moderna do pop eletrônico, exalando influência de grupos e artistas como Blondie, Prince, Outkast, No Doubt, Jamiroquai e Nile Rodgers (que toca no disco também).
Começando com a maravilhosa faixa título, que é uma música bem marcante e já diz ao que veio: Estamos diante de um álbum que vai ser lembrado pelas próximas gerações. Arquitetada para simular uma banda ao vivo, temos uma espécie de funk/rock dançante e empolgante.
Logo após, vêm o primeiro single do disco e facilmente o maior sucesso da sua carreira até agora, "Don't Start Now" chegou ao #2 lugar tanto no UK quantos nos USA, e recebeu 3 indicações ao Grammy (Gravação do ano, Música do ano e Melhor Performance Pop Solo). Cheia de Groove e com um dos refrões mais marcantes de 2020, a música fala sobre uma pessoa que está definitivamente decidida a superar o fim de um relacionamento, mas num tom otimista e cheio de auto estima. Talvez seja a faixa que melhor capture a essência lírica de Lipa até agora.
A terceira faixa, 'Cool', é facilmente uma das melhores da discografia e provavelmente Dua Lipa não será perdoada pelos fãs, uma vez que não chegou a ser lançada como single. Com grande influência dos anos 80 na sua produção, podemos ver elementos do trabalho do Prince e da Gwen Stefani aqui. Ela descreve bem a sensação de se apaixonar por alguém e não temer se aventurar nessa experiência.
"Physical", segundo single do disco, teve recepção morna nos Estados Unidos (alcançando no máximo a posição #60), mas foi um grande sucesso em toda a Europa. A música referência o trabalho da cantora Olivia Newton-John, e é uma das mais energéticas do registro
"Levitating", lançada como quinto single do disco, chegou a posição #5 no UK e USA, e é uma das músicas mais luminosas do álbum. Com forte influência do funk, a música abre espaço pra o uso do talkbox e um pequeno trecho acapella antes do final da música, além, claro, de ter um refrão pegajoso e que certamente seria sucesso nos shows da cantora.
A dobradinha "Pretty Please" (escrita pela Julia Michaels) e "Hallucinate" (#4 single do disco) exploram bastante o uso do baixo em sua estrutura e lembram bastante o trabalho de grupos como Earth, Wind & Fire e Stevie Wonder.
Outro ponto alto do disco é a música "Love Again" que além de dançante, é suave e serve de contraponto ao restante do disco. Repleta de violinos, violões e uma letra esperançosa, refletindo uma personagem que, apesar de já ter sofrido muito com decepções amorosas, acaba de reparar que, aparentemente encontrou uma pessoa que a fez se apaixonar de novo. A estrutura lembra bastante o álbum "Take Me Home", da Cher, especialmente a faixa título e "Happy Was The Day We Met". A música poderia ter sido um grande sucesso da cantora com as rádios, inclusive no mercado mais maduro, devido a universalidade da letra, mas infelizmente não foi aproveitada.
A nona faixa do disco é a sarcástica "Break My Heart", com sua letra extremamente ácida e baixo marcante. Acabou sendo o terceiro single do álbum e chegou a posição #13 na Billboard, apesar de ter sido um grande sucesso internacional. A música relembra o quanto Dua Lipa pode ser uma compositora marcante e afiada.
Infelizmente, os pontos fracos do disco acabam acontecendo na reta final, o que deixa a impressão geral um pouco prejudicada. "Good In Bed" acaba sendo uma versão ruim da Lily Allen, falando sobre... Licenciosidade sexual, mas de um jeito que soa apenas bobo, ao invés de audacioso. E bem, encerrar um disco com "Boys Will Be Boys", além de quebrar a sonoridade (não de um jeito positivo) foi uma péssima escolha. A sensação que fica é que nem ela nem os compositores conseguiram transpor a ideia de uma forma madura, o que na verdade, reflete que muitas vezes quando se fala de feminismo hoje em dia, acaba sendo de uma forma rasa ou infantil. Ponto detrator.
Das 11 canções, 9 são excelentes. Ainda assim, soa bem acima da média de outros lançamentos pop recentes, como o Romance, de Camila Cabello.
Apesar de ter sido lançado no meio da pandemia do Corona Vírus, o disco conseguiu se sair bem comercialmente, atingindo a marca de 2 milhões de cópias vendidas mundialmente, além de ter recebido 6 indicações ao Grammy Awards.
Future Nostalgia não é um disco perfeito, mas as suas muitas qualidades mostram um crescimento enorme para a cantora. O fato de ver uma popstar ainda se preocupar em criar um "body of work", uma OBRA propriamente dita, em tempos onde a única preocupação da maioria dos jovens popstars é apenas emplacar uma música numa playlist no Spotify, mostram que Dua Lipa têm uma visão mais ampla e audaciosa, e enxerga para onde está direcionando sua carreira. Não acho que ela já tenha chegado no auge do seu estrelato ou seu ápice artístico, mas sim, que ela está caminhando para isso e com passadas largas, sendo uma das poucas dessa leva de artistas que têm potencial para integrar a lista de grandes nomes do pop.



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