Father John Misty - I Love You, Honeybear (2015)
- Bruno Fernandes

- 28 de fev. de 2021
- 4 min de leitura
Ah, Josh Tillman e o romance apocalíptico que a gente tanto ama!
Em seu segundo álbum sob o pseudônimo de "Father John Misty", Tillman fez um álbum conceitual sobre si mesmo e aborda diversos acontecimentos da sua vida pessoal, como por exemplo, se envolver com todo tipo de conduta da qual ele se arrependeria depois, depressão e também seu relacionamento com sua esposa, Emma.

Sucesso de crítica, o disco reúne elementos de folk, jazz, blues, country, rock e até eletrônica. A capa foi produzida por Stacey Rozich, e elaborada com base nas músicas do disco, refletem a visão "da beleza noturna de L.A.; um homem emocionalmente dependente de mulheres e seu duelo contra isso; e ressoam com a mitologia psycho-sexual do disco". O álbum foi produzido pelo próprio Josh Tillman em parceria com Jonathan Wilson.
A faixa de abertura, e que dá título ao disco, 'I Love You, Honeybear', já nos dá um vislumbre exatamente sobre o que iremos encontrar: duas pessoas quebradas por dentro, mas que ainda assim tentam se amar e compartilhar o pouco que podem para tentar ser felizes. Versos como "Eu trouxe a depressão da minha mãe, você trouxe o desprezo do seu pai e a esquizofrenia de uma tia" e "Meu amor, é com você que eu quero ver o navio afundar" nos dão idéia do quão emocionalmente desruptivo é o álbum.
Aliás, o conceito do disco poderia ser condensado nas frases desse refrão:
"Tudo está condenado, e nada será poupado. Mas eu amo você, minha ursinha"
A próxima música é a "Chateau Lobby #4 (In C For Two Virgins)", aonde Tillman fala sobre quando ele e Emma se conheceram e estavam explorando LA. E é provavelmente uma das mais belas canções sobre a descoberta do amor já escritas. Através de versos como "pessoas são entediantes, mas você é algo completamente diferente" e "você deixou uma nota com seu script perfeito: fique o quanto quiser. Eu não deixei a sua cama desde então" somos puxados pra uma parte mais luminosa e afável dentro do universo de Tillman. E claro, um festival de instrumentos de sopro/corda ajudam a colorir a música.
Em "True Affection", construída em cima de diversos elementos de música eletrônica, talvez seja a faixa que mais se distoa no disco, e em geral, sua letra fala sobre a sensação de isolamento, muitas vezes ocasionados pelas mídias digitais e como humanamente nós precisamos, desesperadamente, de contato, de verdadeira afeição.
A quarta faixa, "The Night Josh Tillman Came To Our Apartment", vemos o compositor revisitando um antigo relacionamento tóxico, e por meio de suas linhas, expõe o fato de que, por trás de seu sarcasmo e acidez contra sua parceira, estavam escondidos altas doses de "selfloathing", autosabotagem e outros comportamentos destrutivos. Apesar de não ser uma temática louvável, é interessante o simples fato do protagonista conseguir se auto-analisar e perceber que ele estava errado no passado, e aparentemente, nas outras faixas do disco, ter feito esforço em corrigir essa prepotência. Reflete que, não é por que há intimidade sexual, que existe respeito e amor numa relação.
"When You're Smiling and Astride Me", num blues/jazz marcante e cheio de soul, temos uma música perfeita pra dançar com seu par romântico. Em linhas como "Querida, eu te amo como você é, quando está só" e "Quando você sorri e monta em mim, eu mal posso acreditar que te encontrei e estou assombrado com isso", Josh fala sobre a felicidade advinda da intimidade, física e emocional, de se estar com alguém que verdadeiramente ama.
Na sexta música do disco, "Nothing Good Ever Happens At The Goddamn Thirsty Crow", o cantor divide a música em dois atos: O primeiro, baseado em uma faixa blues/country, aonde fala sobre como rejeitou investidas agressivas de mulheres, enquanto estava no bar Crow, em respeito a sua esposa, e por sua vez, no segundo ato, numa espécie de Jazz, fala sobre como a esposa de Josh lidou com assédio, também no Crow, enquanto seu marido estava em turnê. Um casal emocionalmente conturbado? Com certeza. Infiéis? Jamais.
A sombria porém catchy "Strange Encounter", fala sobre um encontro casual que Tillman teve, antes de seu relacionamento com Emma, aonde aparentemente a garota com que estava teve uma espécie de "overdose" enquanto estavam juntos, e o acontecimento teve forte impacto em como Tillman encarava e levava a vida, sendo um ponto de mudança em sua perspectiva.
A próxima canção, "The Ideal Husband", temos um pop/rock bem cativante, aonde Josh reflete, com seu humor sombrio, sobre práticas antigas, como uso de drogas, álcool, dirigir bêbado, fazer sexo sem proteção, abusar verbalmente de amigos e e parentes, e basicamente muitas outras coisas vergonhosas, e em como seu passado, afetaria sua reputação e especialmente sua relação com Emma.
"Bored In The USA" é uma melancólica e sarcástica balada sobre os privilégios do homem branco, desesperados em perceber que seu vazio e problemas não são o centro do universo. O tom sério, é justamente para causar desconforto, enquanto o protagonista irracionalmente clama em busca da ajuda do "Jesus branco".
"Holy Shit", certamente é uma das músicas mais incríveis do álbum. Escrita no mesmo dia do casamento de Josh e Emma, a canção fala sobre basicamente como o mundo basicamente está caótico e deprimente desde que Adão e Eva pecaram (guerras, religiões opressoras, armas nucleares, câncer, decadência moral em escala global, etc...), mas que eles estavam decididos a ser felizes e se amarem independente de isso tudo. "Afinal, o que tudo isso têm a ver com você e eu?"
O álbum acaba com "I Went To The Store One Day", onde Tillman celebra o relacionamento com sua amada esposa, refletindo em como se encontraram por acaso em uma loja até o dia da morte dos dois.
Menção honrosa pra a maravilhosa "Real Love Baby", que acabou ficando fora do corte do disco, mas é simplesmente legal demais pra ser ignorada.
"I Love You, Honeybear" é um daqueles discos que vão te deixar maravilhados ao mesmo tempo em que vão te encher de assombro. Ele é cru e visceral, mas ao mesmo tempo belo e remotamente esperançoso. Dentre outras coisas, o que torna o apelo do disco tão universal, é que ele não é um álbum sobre duas pessoas perfeitas que se amam, mas sobre duas pessoas que, como quase todo mundo nos tempos modernos, estão cheios de defeitos e erros, mas que, no fundo, estão só tentando acertar. Sua maneira torta de amar, em parte culpa sua em parte do mundo que o moldou, mas irremediavelmente, portador de muito amor.
Não à toa, um dos melhores álbuns da década passada e responsável por tornar Josh Tillman em um verdadeiro ícone da cena alternativa.



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