Kesha - High Road (2020)
- Bruno Fernandes

- 15 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
A última década foi uma verdadeira montanha russa para Kesha: A cantora experimentou uma ascensão meteórica, emplacando diversos hits e vendendo milhões de discos, até ter sua carreira inexplicavelmente interrompida em meados de 2014. Pouco após, veio à público que a cantora estava travando uma batalha judicial com o seu anterior mentor, o produtor Dr. Luke, que também era o dono da gravadora de Kesha, a Kemosabe Records. A acusação? Abuso, mental e sexual. A carreira de Kesha entrou na geladeira. Até que, aos poucos, após causar uma enorme mobilização na indústria musical, e conseguir apoio de nomes como Lady Gaga e Taylor Swift, Kesha voltou às paradas com o, já clássico, Rainbow (2017) e foi alçada a um patamar totalmente novo. Cabia agora a Kesha a escolha: Passar o restante da vida portando a bandeira de vítima, de refém de seu abuso, ou dar a volta por cima, e provar que é uma sobrevivente, agora mais forte e confiante que nunca.

Em High Road, Kesha dá sua resposta a isso: Ela escolhe, não se relegar ao papel de vítima, mas de sobrevivente, de guerreira. Similar ao que Tina Turner e Rihanna fizeram em certos momentos de suas carreiras, quando foram colocadas em situações parecidas, Kesha escolhe seguir a diante. Unindo os elementos mais orgânicos utilizados em Rainbow à atitude punk e descompromissada de seus dois primeiros registros, Animal e Cannibal, ela dá um passo á frente.
A primeira música do disco, "Tonight", começa como uma balada ao piano com Kesha cantando a plenos pulmões, quando, aos primeiros 30 segundos, a música converge pra uma versão updated de "Sleazy", faixa do Cannibal, de 2011, com forte infuência de Hip-Hop. Sim, a Kesha rapper está de volta e em ótima forma. A música contém o típico otimismo e leveza que marca o trabalho da cantora. Felizmente, a música foi escolhida como quarto single oficial do disco.
A segunda música, e também segundo single do disco é "My Own Dance". É uma faixa autoafirmativa, onde Kesha questiona seu lugar no cenário musical atual. Ela não está nem um pouco a fim de se ajustar aos moldes atuais do que é popular. Ela nao vai simplesmente tentar replicar a imagem do Animal ou viver à sombra do abuso que viveu, como versa no pré refrão: "You're the party girl, you're the tragedy. But the funny thing is, i'm f**king Everything". Ela não vai ser refém das expectativas das outras pessoas, e vai continuar capitaneando sua própria trajetória. YOU GO GIRL!
Em seguida, o primeiro single do disco, "Raising Hell", em parceria com Big Freedia. A música lembra, em dados momentos, a energia de "Timber", seu hit #1 de 2013, e aborda temáticas religiosas. É uma das faixas mais divertidas de sua carreira. Seu retorno é nada menos que milagroso, uma ressureição. E vem em boa hora.
A quarta música é a faixa título, "High Road", com um mega refrão logo no começo, e depois crescendo pra uma faixa bem uptempo, no maior estilo Ace of base meets Nine Ich Nails. Liricamente, a música fala sobre seguir um caminho superior, de não se ater as dificuldades e sofrimento, mas buscar a felicidade e se concentrar nas coisas boas que acontecem. Spot On.
Logo após vêm "Shadow", uma power balllad brilhante, onde Kesha fala sobre seu amor pela vida. Versos como "i love love and love life". O refrão deixa a seguinte mensagem bem gravada na mente: "So get your shadow, out of my sunshine, out of my blue sky, out of my good times. So get your dark place out of my champagne, i'll be dancing in the rain". De se meditar. De fato, as vezes não podemos mudar as circunstâncias, mas podemos mudar nossa atitude.
"Honey" surge como uma faixa meio R&B meio gospel, onde ela fala sobre amigas que desfazem sua amizade em detrimento de namoros ou relacionamentos, e em como isso é fútil. Em "Cowboy Blues", Kesha entrega uma música country suave e delicada, com algumas personalizações dos versos, similar ao que acontece com "Stephen", de seu disco de estréia. E continua sendo prova de que, eventualmente, um MTV UNPLUGGED dela seria um presente bem vindo. Period.
Outra prova incontestável disso é a faixa "Resentment", terceiro single do disco, em colaboração com o ícone cult do country, Sturgill Simpson e Brian Wilson, do Beach Boys. A faixa apela para o mininalismo, e fala sobre um relacionamento turbulento, com a coragem e vulnerabilidade que apenas Kesha consegue veícular.
Em seguida, "Summer", que é diferente de tudo o que Kesha lançou até agora, começando com uma base melódica e crescendo em direção a um grande climax, com direito a instrumentos de sopro, coro e palmas, num hino de amor juvenil, com gosto de verão. Em "Big Bad Wolf", os elementos urban que Kesha vinha experimentando em "Boots" reaparecem e em boa forma.
Um ponto alto do disco é "Kinky", que começa com uma interlude onde Kesha liga para sua mãe, Pebe Sebert, comemorando ter encontrado com Kinky Spice, das Spice Girls. E a música, uma faixa pop cativante e sexy, referência o trabalho das próprias Spice Girls e até mesmo de Carly Rae Jepsen. "Potato Song", por sua vez, esbarra em Lily Allen e sua "Never Gonna Happen", e serve pra ilustrar a versatilidade de Kesha como compositora e cantora.
Kesha aposta no dream pop para a faixa "BFF", que assina com a parceria de seu amigo Wrabel. Um dos momentos mais brilhantes do disco, e ilustra como amizades têm um efeito positivo e construtivo em sua vida. Sim, Kesha também pode ser fofa, às vezes.
Outra balada interessante do disco é "Father Daughter Dance", onde Kesha brilha como vocalista, demonstrando uma habilidade imensa e grande controle da sua voz. O disco se encerra com "Chasing Thunder", que, por vezes, acena para o trabalho de artistas como Florence Welch, numa espécie de Soul/Blues com vocais continentais. A música fala sobre a busca de inspiração e paixão pela vida.
Apesar de o disco não repetir o êxito comercial dos anteriores, o disco arrebatou elogios por parte da crítica, e evidência que provavelmente Kesha está a caminho de se tornar uma artista pop cult, como Grace Jones ou Kylie Minogue. É a primeira vez que ela não têm um grande hit nas paradas, mas os shows continuam lotados, e os canais de música continuam interessados em sua obra.
Em "High Road", Kesha concilia sua obra e abre luz para onde sua carreira irá prosseguir. E nós, continuamos ansiosos de seguir essa viagem com ela.



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