Fiona Apple - Fetch The Bolt Cutters (2020)
- Bruno Fernandes

- 20 de abr. de 2020
- 7 min de leitura
Como escrever uma resenha que faça justiça a grandiosidade desse disco? Essa pergunta está perseguindo meus pensamentos desde o momento em que o ouvi. É verdade que, sempre que a Fiona Apple vai lançar um disco novo, imediatamente atrai a atenção da crítica e colhe elogios, e ela estabeleceu um padrão altíssimo para si mesma, mas a coisa mudou totalmente de figura em seu quinto disco de estúdio.
Achava-se que 'The Idler Wheel...', de 2012 (que aliás, foi a primeira resenha que fiz para esse blog) dificilmente seria superado, tanto pela riqueza em seu lirismo como pela inventividade, mas 'Fetch The Bolt Cutters' não só o supera, como abre todo um novo caminho para a música e soma-se ao cabedal de masterpieces de Apple. Inclusive, o disco é um dos poucos a atingir 100% da média do Metacritic, e apesar de eu raramente mencionar nominalmente os grandes veículos da critica musical moderna, como Pitchfork, NME, Rolling Stone, entre outros, tenho de juntar-me ao coro e ovacioná-la de pé. Senhoras e Senhores, esse provavelmente será um disco que vai reverberar ao longo da década.

O título é uma citação de uma das frases de um seriado de investigação criminal britânico, The Fall, especificamente do personagem de Gillian Anderson, e pode ser traduzido por "Peguem os Alicates". Tematicamente, aborda temas como "não ter medo de expor o que pensa" bem como desafios que Apple enfrentou em suas interações sociais com outras mulheres.
E é significativo o fato de esse disco ter sido lançado em meio a essa "quarentena global", sendo um álbum tão introspectivo. Passaram-se oito longos anos desde que essa musa nos agraciou com sua música. Bastante restrita no que tange sua privacidade, Fiona pôde lançar o disco pelas redes sociais, sem precisar da superexposição, a que tanto é aversa. O álbum foi inteiramente gravado em seu estúdio caseiro em Venice Beach, com a ajuda de seus músicos: Sebastian Steinberg, Davíd Garza e Amy Aileen Wood, e eventualmente, até mesmo seus cachorros de estimação estão creditados no disco: Maddie, Mercy, Leo, Alfie e Little. Eventualmente, Cara Delevigne e a irmã de Apple, Maude Maggart auxiliaram com os backing vocals de algumas faixas.
Sonoramente, o disco têm a repercussão como epicentro, sustentados pelo o piano e voz de Apple, e tendo baixo, violão, guitarras e afins gravitando ao seu redor. A obra ainda contou com instrumentos de percussão caseiros e improvisados, consistindo até mesmo de longos takes de gravação onde instrumentos eram acertados por objetos ou lançados contra superfícies. Mais realista impossivel. Além disso, a voz de Apple sequer foi filtrada, dando ao disco uma visceralidade e aspereza únicas.
A primeira música do álbum nos foi apresentada em 2013, em alguns dos shows da "Anything We Want Tour", e felizmente ela fez seu caminho até aqui. "I Want You To Love Me" começa com uma bateria programada, emulando o ritmo dos versos, até que é interrompida abruptamente, e os primeiros acordes de piano entra em cena. A ideia de versos/refrão/versos/refrão/ponte/refrão caem por terra aqui, e a escolha de versos 3/5 é no mínimo intrigante. Apesar de não ter sido criada com este intento, o impacto que a primeira música do seu primeiro disco em oito anos começar comos versos "I've waited many years, every print i left upon the track has led me here" é de se considerar. A música fala de forma sublime sobre amar e desejar ser correspondido.
Note a beleza de versos como:
"I move with the trees in the breeze I know that time is elastic And I know when I go All my particles disband and disperse And I'll be back in the pulse And I know none of this will matter in the long run But I know a sound is still a sound around no one And while I'm in this body I want somebody to want And I want what I want and I want
You to love me"
A segunda música, "Shameika", fala sobre os anos escolares de Fiona, onde a mesma relata como fazia para lidar com o Bullying, mas, notavelmente pontua o Bullying que sofreu às mãos de uma garota chamada Shameika. Aqui, a frase que era usada para zombar e depreciar Apple, é utilizada como um troféu, de forma gloriosa. Você estava certa, Shameika: Fiona tinha mesmo potencial.
"Back then I didn't know what potential meant And Shameika wasn't gentle and she wasn't my friend but She got through to me and I'll never see her again"
A terceira música é a faixa título, "Fetch The Bolt Cutters". Em sua letra, Apple, agora mais madura, reflete sobre sua relação conturbada com o mundo da música. No VMA de 1997, ela disparou a icônica frase "This World Is Bullshit". E de fato o é. Fiona descreve como "Você se machuca, mesmo quando ganha", e que a indústria "mutila quando está na ofensiva" e "mata quando está na defensiva", e como as "VIP, PYT and wannabes" ficam preocupadas em serem amigas da mídia. É uma forma de reanalisar toda sua trajetória, e o quanto foi benéfico e sábio para ela se afastar da grande indústria. Ela ainda existe e ainda é real e não precisa disso pra fazer música que ama e aprecia. Brilhante. E além da percussão fortíssima, o audio de seus cachorrinhos latindo através da faixa, passam um senso de serenidade e independência.
"I've been thinking about when I was trying to be your friend I thought it was then, but it wasn't, it wasn't genuine I was just so furious but I couldn't show you 'Cause I know you and I know what you can do And I don't wanna war with you, I won't afford it You get sore even when you win"
A quarta música do disco é "Under The Table". Aqui, Apple fala sobre um jantar em que foi convidada e, uma das pessoas na mesa falou algo desagradável, que a deixou irritada e a fez rechaçar o comentário. Seu acompanhante não gostou, e passou a chutá-la por debaixo da mesa. Em resposta, ela disse: "chute por debaixo da mesa o quanto quiser, eu não vou me calar". A música sinaliza certos comportamentos machistas aos quais muitas mulheres são submetidas. Claro que a música pode se aplicar a qualquer situação de coerção.
A frase que serve como base para Relay:
"Evil is a relay sport When the one who's burnt Turns to pass the torch"
Segundo entevista para a revista Vulture, foi escrita quando ela tinha 15 anos, muito influenciada pelo abuso sexual que sofreu aos 12 anos, e fala sobre como perpetuamos a cultura do ódio, sempre depositando nossas frustrações e raiva em outras pessoas, num círculo de coisas negativas. Dentre outras coisas, critica influencers digitais e impunidade criminal.
A sexta música é "Rack of His". Fiona começou a trabalhar nela a mais de 10 anos, mas não conseguia terminar, sempre percebendo que faltava aquele toque especial. Eventualmente, em uma sessão de ensaio com Davíd Garza, ele soltou uma frase que reacendeu a ignição pra completar a música. A faixa fala sobre dois relacionamentos antigos de Apple, e seu sentido foi mudando com o passar do tempo.
A sétima música é "Newspaper", onde Apple fala sobre um ex namorado abusivo, e expressa sorodidade para com a namorada atual, ao analisar os sofrimentos e humilhações aos quais ela está exposta. Mas apesar da empatia, devido a interferências dele, elas nunca poderiam ser amigas.
"I watch him walk over, talk over you, be mean to you And it makes me feel close to you"
"I wonder what lies he's telling you about me To make sure that we'll never be friends And it's a shame because you and I didn't get a witness We're the only ones who know We were cursed the moment that he kissed us From then on, it was his big show"
A oitava faixa é "Ladies", altamente influenciada pelo blues, onde Fiona canta sobre como, ao invés de se oporem, as mulheres deveriam se unir. Seja em questão de relacionamento, seja na indústria musical, elas devem trabalhar em equipe. Frases como a abaixo são tão somente belas:
"Nobody can replace anybody else So it would be a shame to make it a competition And no love is like any other love So it would be insane to make a comparison with you"
A nona faixa, "Heavy Balloon", fala sobre depressão, e como peso constante afeta a vida e perspectiva dos seus hospedeiros.
"People like us get so heavy and so lost sometimes So lost and so heavy that the bottom is the only place we can find"
Em "Cosmonauts", décima faixa, fala sobre os desafios e recompensas da monogamia. A música foi escrita originalmente para o filme This Is 40, mas como não foi aprovada, Apple a regravou e adicionou novos vocais e versos. A ideia é realmente passar a ideia de dois astronautas num foguete, só que além do peso comum, há o peso da convivência."
"When you resist me, hon', I cease to exist Because I only like the way I look, when looking through your eyes"
A décima primeira música é a sombria "For Her", que fala sobre um relacionamento abusivo de uma amiga de Fiona, que ela preferiu manter anônima, mencionando agressões verbais, físicas e até mesmo estupro. A música foi construída de uma forma em que, quão mais grava vai ficando a narrativa, mais se intensifica a voz e o ritmo. Apple regravou seus vocais diversas vezes, criando um coral.
"You raped me in the same bed that you're
Daughter was born"
Em "Drumset", há uma história cômica: Jonathan, ex namorado de Apple, havia acabado de terminar com ela, e ela estava irritadíssima, e acabou tendo uma discussão feia com os membros da banda. Posteriormente, eles retiraram alguns dos seus instrumentos da casa de Apple, e ela erroneamente achou que eles também estavam "terminando" com ela. Ela ligou para eles e entoou os versos que hoje compõem a música. O que ela não sabia, é que eles tinham retirado os instrumentos apenas por que teriam que se apresentar em algumas Gigs. A gravação dessa música retrata a veracidade de uma amizade, que apesar de problemas, continua de pé.
A faixa que encerra o disco, "On I Go", é cheia de significado. A música fala sobre fazer as coisas porgostar de fazê-las, não apenas pensando nos resultados, mas por amor ao fazê-las. Sobre não precisar provar nada pra ninguém ou não ter pressa. De fato, ilustra bem a maneira de pensar e agir que Apple vêm adotando desde muito tempo.
"On I go, not toward or away Up until now it was day, next day Up until now in a rush to prove But now I only move to move"
O disco lança um pouco de luz sobre o que Apple têm feito nos últimos anos, e mais que tudo é um retrato/sinfonia sobre a vida, um convite para refletir sobre ela.
Nenhum dos clichês ou fórmulas já conhecidas constam aqui. Tudo soa e emana como ineditismo e inventividade. Nada jamais soou como isso na história da música. Apple abriu novas fronteiras no que se refere a música e a criação de métricas musicais. Esses anos foram longos, mas cada dia da espera valeu a pena. Sem nem precisar sair de casa, Fiona Apple abalou o mundo da música.



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