Deftones - Ohms (2020)
- Bruno Fernandes

- 28 de jan. de 2021
- 5 min de leitura
O momento de mudança de uma década para a próxima parece ter um efeito benéfico ao Deftones, quase como que uma espécie de "alinhamento de planetas", sendo que justamente nesses períodos tivemos o lançamento de duas obras primas da carreira da banda, com White Pony (2000) e Diamond Eyes (2010), e mais recentemente, com Ohms (2020).
Felizmente, mesmo em meio a pandemia, a banda lançou um dos melhores discos de sua carreira e nos deu uma obra que continua se revelando a cada audição. Aparentemente a banda andou fazendo o dever de casa e reune aqui as melhores caracteristicas de Koi No Yokan (2012) e Gore (2016), mas aprimorando os pontos de melhoria. Quem assumiu a produção do disco foi o Terry Date, que já havia produzido os 4 primeiros discos da banda, além de nomes como Slipknot, Bring Me Horizon e Slayer. Fantástico.

Conceitualmente, conforme o próprio vocalista Chino Moreno disse, a ideia por trás do nome Ohms, que é definido cientificamente como a relação entre a tensão de um volt e uma corrente de ampère, ou seja, a resistência elétrica entre dois pontos de um condutor.
Segundo o vocalista, Ohms é a justaposição do que a banda realmente é: “É esse equilíbrio e polaridade das coisas. Eu sempre descrevi a nossa banda como tendo esse yin e yang. Como pessoas, a música que fazemos, e as letras que eu escrevo, há sempre essa justaposição e essa é a beleza do que nós criamos.”
A capa do disco, feita pelo artista Frank Muddocks, é uma homenagem ao clipe de "When Doves Cry", do cantor americano Prince.
O disco começa com os dois pés na porta com a avassaladora "Genesis", que viria a ser o segundo single do disco. Em uma das músicas mais pesadas da discografia dos Deftones (A faixa representa bem a inspiração central do disco), Chino Moreno canta versos sobre paz interior e busca pôr equilíbrio, como abaixo:
"Eu rejeito,
os dois lados do que têm me dito.
Eu vejo através.
Agora veja o quão selvagem isso se torna.
Eu finalmente atingi o equilibrio.
Me aproximando de um renascimento atrasado"
Em "Ceremony", a banda explora texturas de grupos como Muse, Smashing Pumpkins e Jane's Addiction, tudo através de refrões pegajosos e um clímax ímpar. Pesada e ao mesmo tempo acessível, a faixa quese tornou o terceiro single do disco, questiona a consistência da realidade em versos como "Diga-me, o que sobra? É tudo uma ilusão", "O mundo que dividimos, nunca esteve lá" e "Vou me juntar ao desfile dos fantasmas que vieram antes, te deixando completamente. Sem suspresas"
"Urantia", é uma das melhores músicas já feitas pela banda, e já se inicia com um mega riff no estilo "Trash Metal", até se transformar num clássico instântaneo do Deftones, com leve influência do álbum Comalies do Lacuna Coil. A faixa nas dá um pequeno deslumbre sobre um estado conturbado que o vocalsita estava enfrentando com sua esposa, mas que facilmente se aplicaria a qualquer relacionamento precioso que tenhamos, em que às vezes, à conflito ou tensão (olha o conceito aqui de novo! rs). De acordo com a letra, há momentos em que ambos estão "perdendo a cabeça" e precisam "rearranjar as partes". De qualquer modo, não há intento em romper a relação, "não há mais ninguém como você", mas em preservá-la, estando ali "dos canais dos nossos sonhos, até a morte".
Em "Error", a banda demonstra bastante da influência do Nine Inch Nails no somd a banda, principalmente na forma como os vocais mais agressivos são emitidos, lembrando bastante o estilo de Trent Reznor. A música é uma das mais aceleradas do disco, até o momento em que há uma quebra no climax e passamos a reconhecer a sonoridade clássica do grupo. Coberta de metáforas e referências ao livro bíblico de Gênesis, a quarta faixa de Ohms fala sobre a busca de entender a si mesmo, quem somos no universos e sentir-se completo.
Então, começa "The Spell Of Mathematics", uma faixa que poderia facilmente se tratar sobre amor e sexo, escondem-se em versoso como "Nós escorregamos e com o tempo criamos uma sensação de calor dentro de você", "beleza é quando você me toca", "eu acredito que seu amor lançou um feitiço em mim, acredito que seu amor é a única coisa necessária pra viver. O seu amor guarda essa sagrada chave para a vida", declarações sobre a busca de significado da vida, sobre equilibrio entre a vida carnal e espiritual, resultando na união de itens referentes a matemática (lógica, fatos) e feitiço (fantasia). A faixa termina em uma contraposição de um rítimo de muito groove e elementos pesados, enfatizando a polarização de pensamentos e emoções.
A única coisa no disco que remotamente lembra uma balada, no sentido mais tradicional da coisa, seria "Pompeji", que apesar de começar lenta e climática, explode em uma das faixas onde o vocal de Chino Moreno está mais agressivo. Através de versos como "no fundo das profundezas do oceano. Corpos vazios, nós afundamos" e "A vida têm sido solitária, talvez seja pra sempre. Tornando difícil de acreditar", somos remetidos a um contexto de desesperança e caos, e na luta para manter uma visão mais positiva das coisas em meio ao mundo caótico em que estamos. Algo bem contundente no período pandêmico que atravessamos.
Neste ponto, começamos uma esteira de faixas pesadas, numa verdadeira trinca de ases, com as músicas "This Link Is Dead", "Radiant City" e "Headless", se complementando perfeitamente, como sugere na faixa "This Link Is Dead": "Você queria ação?!" Ambas as músicas falam sobre como lidar co sentimentos negativos, a respeito de si memso ou do mundo, a aceitação dos fatos e da morte, e chegar a bons termos em relação a compreensão de que, nossa existência independe da aprovação externa.
Em "Ohms" faixa que encerra e dá o nome do disco (e primeiro single) temos a sensação de que voltamos à estaca zero, e só reafirma o conceito apresentado em "Genesis", porém, de uma forma mais consciente do passado e futuro, o contraste entre beleza e caos, em versos reflexivos, como "nossos cercados pelos detritos do passado e é tarde demais para causar uma mudança nas marés" e "O tempo não mudará isso. É assim que ficará". A música fala sobre o poder que as nossas escolhas que temos, e que apesar de o futuro parecer desesperançoso, temos certa medida de controle quando a nossa vida individual.
Pesado e belo, Ohms é exatamente o que você esperaria e amaria de um álbum do Deftones, mas ao mesmo tempo, é completamente diferente dos projetos anteriores. É um disco enxuto, focado e vibrante. Não à toa a banda se tornou uma das maiores referências do metal alternativo moderno e continua carregando a tocha para o gênero. Deftones resiste a prova do tempo com empenho e tenacidade de causar inveja a muitos de seus contemporâneos.



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