Cícero - Cosmo (2020)
- Bruno Fernandes

- 18 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Ao longo da última década, Cícero se estabeleceu como uma das figuras mais importantes e significativas do cenário alternativo nacional, e lançou quatro discos brilhantes, verdadeiras obras primas. No entanto, em seu quinto álbum de estúdio, Cosmo, presenciamos seu primeiro tropeço.
Sua obra estava num processo crescimento e expansão, lírica e sonoramente, mas aqui, o universo de Cícero parece ter chegado em uma parede. Por diversas vezes, parece que o cantor está tentando emular a sonoridade, estética ou lirismo de Sábado (2013) e A Praia (2015), mas sem o frescor ou inventividade deles.
A primeira faixa, e primeiro single do disco, é "Falso Azul", parece ter sido tirada direto de Sábado, apelando para sintetizadores e uma sutil guitarra. De longe, a melhor performance do disco. Sua atmosfera emula o tempo todo algo que poderia ser considerado como "semi dance", deixandoo ouvinte sempre na expectatica de que a música se torne um House ou EDM. De forma poética e abstrata, ele alterna entre referências sobre o universo físico e pontos da vida do compositor, o lugar que o interlocutor ocupa no espaço. E claro, um dos seus melhores refrões de todos os tempos.
"Céu não há, hoje foi embora Tem, mas não tá ou não quer aparecer Alto lá, onde ninguém mora Longe daqui
Céu não há, tudo é só estar A vagar em suspenso Tão distante do próximo Distante do próximo, distante"
Em "Some Lazy Days", Cícero aposta numa das suas faixas com mais groove/pop até então, numa vibe de surf rock. De longe, uma das canções mais catchy do seu repertório. O único ponto detrator: A letra. Certas rimas parecem ter sido colocadas apenas para completar a métrica dos versos, algo que ele, até então, nunca havia necessitado fazer. E honestamente, não precisa. Lazy Job, Cícero, Lazy Job.
O lirismo nos versos de "Esquinas", é um crossover entre a melancolia urbana de Sábado e o romantismo de Canções de Apartamento, falando sobre, como simplesmente ao passar por uma rua ou um lugar, ouvir uma música ou sentir um cheiro, pode nos fazer lembrar de algum ex-amor ou desamor, e como isso pode afetar o dia de alguém. Além do blues que reveste a faixa, os elementos eletrônicos que encerram a faixa lançam luz pra um novo campo de experimentações na obra do artista.
"A rua anda estreita Talvez seja culpa do mar Acabo de revê-la Ainda sem nada pra falar
Nenhum recomeço, nem nada pra começar Reconhecê-la sem nunca conhecê-la E a mente só quer querê-la E a mente não quer deixar"
O pop/rock uptempo de "Às Luzes", por vezes remete ao trabalho de grupos como Radiohead e Metric, discorre em sua letra sobre temas como a ansiedade de uma rotina sufocante ou de autoisolamento. Novamente, a instrumental escolhida para realizar o encerramento da faixa conta com um groove fantástico. Sinceros elogios ao baixista e ao guitarrista.
"Caio num espaço indefinido Vago parte do infinito onde eu caibo Todas as cidades Todas as saudades Tudo que se perde em mim Ou não encontrei
Vejo você, me vejo em casa Nesse lugar Vejo você, chego em casa"
Chegamos na quinta faixa, "Marinheiro Astronauta", e a estafa se manifesta novamente. Envolta em uma melodia ensolarada, sinterizedores e com direito a assobios, a faixa até mesmo têm duas mudanças de ritmo marcantes, no melhor estilo Secos & Molhados. O problema? Novamente, pecados inescusáveis nas letras: "Vem o sol pronto pra nos assar Onde for ele também vai estar Pois bem um tatuí veio pra me avisar Que não é para me preocupar"
Sério, Cícero?
Um ponto alto do disco é "Miradouro Nova Esperança", conduzida por uma guitarra melancólica e raw, e amparada por instrumentos de música clássica, que eventualmente acaba por explodir com uma bateria bem marcante. E aqui, a composição é realmente uma "estrela":
"O céu anda mesmo distante Vendo o tempo passar É, são dias estranhos Também não sei onde vai dar Ares e cores de algum lugar Me amiguei do vento, que é pra não cansar"
Daí em diante, o disco se resume a faixas lentas, de naturezas diferentes e propósitos discutíveis. "O que ficou", discorre sobre saudosismo e buscar consolo nas memórias, em uma versão mais dramática de "Duas Quadras". A próxima faixa, "A Chuva", remete à "Soneto de Vera Cruz", menos experimentou ou inventiva, sendo assim sua prima emo.
"Banzo" mira no trabalho de Lenine, e coloca Cícero apenas com sua guitarra. Por vezes há versos recompensadores como:
"A estrada vai longe É preciso perder pra ganhar Entender é o escombro"
"Nada ao redor" encerra o disco, apenas com o teclado e a voz de Cícero, e sua letra fala sobre o quão pequenos somos em comparação com o universo e nossa busca vã em "significar".
Em resumo: Como um todo, o disco não é ruim. Mas, comparando Cícero com Cícero, Cosmo sequer arranha a glória de seus trabalhos anteriores, o que, para mim, pessoalmente, é uma lastima. Quando ele acerta, o faz com primazia, mas as falhas, tanto quanto, ficam evidentes. Mas, falhas como essas ocorrem com qualquer artista. Resta a expectativa de ver como o mesmo irá se erguer, e vê-lo apresentar um universo mais inspirado.



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