BaianaSystem - Duas Cidades (2016)
- Bruno Fernandes

- 1 de fev. de 2020
- 3 min de leitura
É difícil não pensar na ascensão do BaianaSystem como um verdadeiramente milagre. A banda, obviamente baiana, liderada por Russo Passapusso, surgiu em 2009, e aos poucos foi construindo uma enorme base de fãs, misturando música caribenha, reggae, rap e diversos outros ritmos, e tendo como premissa, ressignificar a guitarra baiana. Apesar de soar e se portar como o Axé, especialmente em seus primórdios, com todo o viés de protesto e reivindicação dos direitos de seu povo, a banda rejeita prontamente o título, apesar de seu relacionamento amistoso com diversas lendas do gênero, como Margareth Menezes, Luiz Caldas e Jauperi. Somando a música baiana ao projeto de SoundSystem jamaicanos, a banda criou algo até então inédito na cena musical, se tornando não só uma das maiores contribuições da Bahia para a música brasileira na década, mas de todos os tempos.

A banda criou o próprio trio elétrico adaptado, o Navio Pirata, que agora arrasta multidões nos carnavais da Bahia, e também somou uma identidade visual, sob comando de Felipe Cartaxo, de máscaras totalmente originais da banda. Após emplacar a música "Playsom" na trilha sonora do FIFA 2016 a banda passou a se tornar uma sensação internacional, e a fazer inúmeras turnês por toda Europa e Asia. Apesar de já ter um disco de estúdio, o autointitulado de 2010, foi com o disco Duas Cidades que a banda se estabeleceu como um fenômeno a ser reconhecido, de uma vez por todas.

A música do disco flerta com elementos eletrônicos, hipop, axé, guitarra baiana, jazz, pop e diversos números. Num momento em que a música baiana se encontrava estagnada e morbidamente homogênea e insossa, a banda teve a árdua e corajosa tarefa de lançar um disco pungente, repleto de críticas sociais sobre as próprias auto segregações que permeiam a sociedade baiana, com todos os trejeitos e detalhes que a Bahia têm, em cada uma das gírias e metáforas. Tudo isso sem perder o bom humor e otimismo, característicos. É uma carta de coração, na língua do povão. Em teor, o disco lembra muito clássicos como 'Reflexu's da Mãe África', da banda Reflexus e 'Egito, Madagascar' do Olodum.
Jah Jah Revolta pt. 2, faixa de abertura, nos convida a uma imersão nessa realidade urbana do disco, completamente influenciada pelo jazz. O pop direto de músicas como Playsom e Dia da Caça camufla críticas a violência das ruas, "Têm buzú pegando fogo", "Hoje não têm canivete, é serpentina e confete". As faixas mais ásperas do disco, como Duas Cidades, destacam a desigualdade social na Bahia, como que num Apartheid camuflado, separando a população, incitando um autoflagelo e autoexclusão. Bala na Agulha discursa, de forma discreta, sobre o desemprego e os desafios para existir na capital baiana. Em Barra Avenida, a banda ostenta solos, capazes de causar inveja em qualquer banda de qualquer banda de metal, isso tudo "sem duvidar do samba reggae". E claro, o grande hit do disco, Lucro (Descomprimindo), fala sobre a perseverança em desafiar os desafios cotidianos. Quem mais, ousaria rimar "as meninas de mini saia" e "especulação imobiliária"?
Dificilmente, a banda ganhará algum dia o troféu Dodô e Osmar por música de carnaval, nem tampouco teria a canção nº 1 nas rádios, mas o significado e importância da banda vai reverberar através das décadas à frente. É como se Chico Science e a Nação Zumbi dialogassem com os Novos Baianos. E no fim, todo mundo sai no "Lucro".
Ouça: Lucro (Descomprimindo), Jah Jah Revolta pt2 e Bala na Agulha.



Comentários