Agridoce - Agridoce (2012)
- Bruno Fernandes

- 16 de jan. de 2021
- 4 min de leitura
Quando artistas de grande porte se aventuram em projetos paralelos, quase sempre têm seu material descreditado ou pré julgado, pela crítica e público, mesmo antes de ver a luz do dia. Isso poderia ter facilmente sabotado a estréia do disco " Agridoce", do projeto de mesmo nome da cantora baiana Pitty e o guitarrista Martin Mendezz.

A grande vantagem do disco, lançado em 2012, é que ele foi lançado num período em que a banda de Pitty estava em hiato desde o lançamento de Chiaroscuro, de 2009, (por tempo indeterminado) e os fãs estavam àvidos por novas músicas. Ambos estavam de férias numa casa na Serra da Cantareira, e se despiram do rock que marcava a sonoridade da banda, por um folk fortemente influenciado pelo som de Nick Drake, Lou Reed, Leonard Cohen e muitos outros. Por ventura, o grupo acabou integrando o movimento de pop/folk que dominou a cena alternativa nacional no começo dos anos 2010, com nomes proeminentes como Thiago Pethit, Tiê, Cícero, e muitos outros.
O disco começa com 'Embrace The Devil', que apesar do título em inglês, é cantada em português (com exceção de uma linha no refrão, em que se canta a frase do título). Numa sonoridade que lembra o estilo de grupos como The Pretenders e Neil Young, a cantora fala, num tom ácido, sobre lidar com as circunstâncias da vida e de relacionamentos. Afinal, nem sempre teremos as saídas mais fáceis na vida. "Once in hell..."
Logo após, vêm o primeiro single (e maior sucesso do disco), 'Dançando', chegou até a décima posição na Billboard Hot 100 do Brasil, e teve bom êxito nas rádios. Uma das canções mais românticas e vulneráveis do repertório da Pitty, com a marcante frase: "Se o mundo acaba hoje, eu estarei dançando com você".
'Say', é quase um "britpop" meets "Lily Allen/Kate Nash". Cantada totalmente em inglês, mas apesar de soar leve e agradável, a letra está repleta de retratos sombrios sobre a mente ou cotidiano da persona por trás dela.
Em 'Romeu', a temática amorosa aparece novamente, mas de forma mais quente, carnal, e apegada, com frases como "esqueci minha boca no seu corpo" e "colei os meus olhos no seu mundo". A letra fala sobre uma pessoa que, apesar de perdidamente apaixonada, reluta em se permitir viver a experiência. "É só que eu me apavorei ao me ver tão feliz".
A quinta faixa, '20 Passos', doa o protagonismo ao Martin nos vocais, dissertando sobre o peso da rotina e monotonia, e o quanto precisamos de companhia para partilhar a vida.
A sexta faixa é uma releitura do clássico 'Ne Parle Pas', que combina bastante com a temática do álbum.
Em 'Upside Down', que é cantada majoritáriamente em português, com apenas o refrão em inglês, Pitty e Martin alternam as linhas vocais de uma letra que descreve duas pessoas em existências completamente distintas, porém similares, que convergem num harmonioso refrão que fala sobre a difícil sensação de "não pertencimento", que vez por outra acomete as pessoas.
'Epílogos' traz uma visão mais madura e ponderada à temática de 'Semana Que Vem', hit do disco de estréia de Pitty. Ambas falam sobre a brevidade da vida, sobre aproveitar de forma sabia a nossa finita estadia na terra. Temos aqui uma Pitty relutante, e madura, ponderando sobre ainda ter projetos pessoais, como criar um filho, trabalho, etc.. No fundo, nenhum de nós está pronto pra ir.
"Não me leve agora
Eu não quero ir embora
Tenho tanto o que fazer
Tenho um filho pra ter
Tenho motivos pra crer
Que ainda não é hora"
Logo após, começa 'Rainy'. Não é possível ser taxativo sobre o intento da música, mas poderia facilmente ser a respeito de depressão. Mas em suma, pode-se notar que a música fala sobre como as relações humanas podem ser instáveis. Mas ela pede, "mesmo se eu estiver chuvosa, se lembre do meu lado ensolarado" (só que em inglês, por que a letra inteira é em inglês). Nada mais justo.
'130 Anos' foi o segundo e último single do álbum, e como a letra sugere, fala sobre as complicações e desafios que a uma vida longa pode trazer. Uma vez que o vigor da juventude se foi, o restante da nossa vida pode ser bastante desesperançosa. Difícil aceitar que não se têm mais nem um terço da glória de outrora. Talvez, uma das letras mais tocantes de seu acervo.
"Caro é transformar-se num arremedo de si próprio
A ponto de nem se reconhecer mais
Hoje eu tenho 130 anos
Isso não estava nos meus planos
Você sabe a desordem é tenaz"
'O Porto' fala sobre as inquietações, pessoais e artísticas de Pitty, mas é de fácil semelhança com qualquer um de nós. É inato a muito de nós o "anseio de ir sempre além, vontade de nunca parar" e muitas vezes preferimos o "tropeço que impulsiona, do que a mão que só afaga". Sombria, a faixa fala direto ao coração do ouvinte.
O disco se encerra com uma belíssima regravação de 'Please, Please, Please Let me Get What I Want', dos Smiths, que ganha novo brilho na voz de Pitty.
O processo de gravação rendeu algumas músicas bem interessantes que acabaram ficando de fora da tracklist final como a espetacular "Alvorada", o hino das boas vibrações "B. day" e a singela "La Javanaise", todas fortes só suficiente para integrar o cut original.
O álbum vendeu consideravelmente bem, levando em consideração o mercado nacional, com 20 mil cópias. Mais que isso, apresentou uma nova faceta da aclamada cantora baiana e nos presenteou com novos polos nas composições da mesma. O que teve início como um projeto recreativo entre Pitty e Martin, resultou em um dos melhores discos da década passada e da carreira da baiana.




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