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Tori Amos - Under The Pink (1994)

  • Foto do escritor: Bruno Fernandes
    Bruno Fernandes
  • 29 de fev. de 2020
  • 4 min de leitura

Após o grande sucesso de seu primeiro disco e uma turnê bem sucedida, Tori Amos retornou ao estúdio com o apoio de seu namorado Eric Rosse para produzir um novo disco. Ao invés de simplesmente tentar replicar sua identidade sonora, calcada no rock barroco ou pop barroco de Little Earthquakes, Amos retornou com um disco mais abstrato e menos confessional, apostando em estruturas musicais mais experimentais e complexas.

O tema central do disco é referente a diferenças estruturais e sociais dos gêneros e o papel da mulher na sociedade, e a capa pontua bem essa questão. Sob o tema "Under The Pink", ou em português, "Debaixo do Rosa", apresenta Tori Amos de branco numa espécie de geleira, visando ser vista não como um objeto ou alvo sexualizado, mas um indivíduo. Não que a mesma objete o fato de ser uma mulher, mas no contexto ela se posiciona como observadora, artista, mais do que qualquer coisa. O fato de ser uma mulher ou um Homem não deveria ser o assunto mais importante, mas a pessoa em si, ou o artista em si. O disco rendeu a Tori seu primeiro #1° no UK e a posição #12° no USA e vendeu mais de 3 milhões de cópias mundialmente.

O disco começa com "Pretty Good Year", que se tornou um dos maiores hits de Amos na europa, atingindo o #7° no UK e diversas outras tabelas musicais. Apesar de soar como uma das baladas do Little Earthquakes, a música nos surpreende com um break extremamente cortante no refrão, com guitarras e baterias altas. Honestamente, é difícil entender o ponto central dessa música. Pode ser comparada, pelo menos em intento, a "A Day In The Life" dos Beatles. Mas linhas como "Don't wanna be a boy today" ou "bought himself a bike to race" sugerem que se trata do êxito de Amos; Que a mesma atingiu sucesso de uma forma única, sem precisar se comparar aos homens em sua profissão, ou que, por assim dizer, a mesma conseguiu "sua própria bicicleta", estando no controle da sua própria corrida. Em seguida, "Honey" fala sobre independência e conflito em relacionamentos amorosos, como uma espécie de janela para o estado em que Tori e Eric estavam àquela altura (os mesmos terminariam seu relacionamento naquele mesmo ano). Na terceira música, "Bells For Her", com o auxílio de um piano programado, Amos compôs a música na perspectiva de duas amigas, onde uma delas está num relacionamento abusivo, enveredando para um fim mórbido, e a paralisante sensação de impotência que sua amiga sente ao ver o caminho de sua prezada amiga.

Em "Past The Mission", último single do disco, atingindo #31° nos charts do UK. A música fala sobre a experiência de Amos quanto ao abuso sofrido, e apesar da influência do reggae em sua construção e a sonoridade aparentemente alegre, a letra é reconhecidamente sombria. Trent Reznor, do Nine Inch Nails, contribuiu com os backings vocals da faixa. Dando continuidade ao mesmo tema, "Baker Baker" descreve, como que numa pintura, os sentimentos de pessoas que estão lidando com sentimentos como ansiedae, depressão, vergonha ou culpa, o processo de cura de situações traumáticas. Impossível não se comover com linhas como "My heart has been hard to find" (Têm sido difícil achar o meu coração). A sexta faixa, "The Wrong Band", fala de modo sutil sobre como diversas vezes as mulheres são colocadas como "do lado errado", inaptas de fazerem bom juízo ou de evidenciarem tal, e de como é necessário se impor para não perpetuar essa visão.



"The Waitress" fala sobre a competitividade feminina e como a sociedade a fomenta, utilizando novamente a técnica do storytelling, a mesma descreve certas ponderações de uma garçonete para com uma nova contratada, que a mesma vê como rival. Com frases marcantes como "Eu quero matar essa garçonete; Ela trabalhou aqui por mais tempo que eu. Se eu fizer isso rápido, será um ato de bondade". Felizmente, no decorrer da música, a garçonete cai em sí e percebe o quão tola é essa atitude, e que ao invés de rival, devem se ver como parceiras. Sisterhood activated. Há espaço para todas. "Cornflake Girl" se tornou, à época, o maior hit internacional de Tori, atingindo #4 lugar no UK e atingindo o top10 de diversos países. A ideia da música surgiu através de uma conversa com uma amiga, a cerca de um ritual de algumas partes da África, de mutilar a genitália de pequenas garotas, e como isso era uma traição especificamente de uma mulher que permitisse ou encorajasse isso. As mulheres que "traiam" outras mulheres assim, eram chamadas "Cornflake Girls". A música faz um contraste entre as "cornflake gilrs" e as "raisin girls" (Garotas que ajudam/levantam as outras), e como é mais difícil ser uma raisin girl.





A nona faixa do disco "Icicle", uma peça clássica com vocais e melodias escarpos e rarefeitos, que aborda temas como a perda de inocência. Em "Cloud On My Tongue", Tori fala de uma experiência muito pessoal, onde a mesma quase entrou num relacionamento com um homem encantadoramente sedutor, mas por mais que ela acha-se ser especial para ele, acaba por descobrir que é só mais uma. Posteriormente, descobriu-se que essa música provavelmente é sobre Anthony Kiedis, vocalista do Red Hot Chili Peppers. a penúltima faixa do disco é "Space Dog", um dos momentos mais experimentais, tanto no que tange as letras quanto a melodia. Com um baixo e bateria bem marcantes, a música aborda basicamente o tema de decepção, especialmente a decepção quanto a Patti Smith não estar mais "carregando a tocha" para as mulheres, e como isso partiu o coração de Tori, e de como a mesma agora teve de a carregar para toda uma nova geração de jovens mulheres. A música que encerra o disco, "Yes Anastasia", é uma peça clássica de 9 minutos, em homenagem a Anastasia Romanov, filha mais nova de Czar Nicholas II, Czar da Russia, que foi assassinada em 17/07/1918, com sua inteira família e empregados. Amos ficou tão comovida com a história e resolveu homenagear a jovem.



Num disco onde a mesma faz diversas referências a culturas e religiões em que o patriarcado exerce pode e refletindo em como isso afeta a vida das mulheres, Amos expande sua obra, trazendo luz sobre temas como rivalidade feminina e sua posição na sociedade, e notavelmente dando continuidade ao trabalho de outras corajosas mulheres, como Patti Smith e Kate Bush. Provando ser mais do que uma One-Album-Wonder, Tori deixa claro que está no controle do próprio jogo. Nunca uma "Cornflake Girl", sempre uma "Raisin girl".



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