Tori Amos - To Venus and Back (1999)
- Bruno Fernandes

- 20 de mar. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 24 de mar. de 2020
Quando se chega ao topo do mundo, nada melhor do que apreciar a vista. E é exatamente isso que "To Venus and Back", quinto álbum de Tori Amos, representa.
Inicialmente, o disco foi planejado para ser um álbum duplo, sendo formado por uma coleção de b-sides e um disco ao vivo. Entretanto, durante a última turnê, diversas músicas foram surgindo, o que resultou em Tori gravar um disco inteiramente novo.
Ao longo da década, Tori Amos se tornou uma estrela mundial, emplacou diversos hits, abordou e levantou a bandeira de temas extremamente importantes e até então tidos como tabu, e criou um enorme legado, artístico e social. Musicalmente, ela deixou um precedente para cantoras/compositoras, e explorou campos totalmente novos. Em To Venus and Back, encontramos Amos simplesmente celebrando e explorando tudo o que construiu, estética e musicalmente. Sendo o disco dividido em duas partes: O lado de inéditas, chamado Venus: Orbiting e o lado de músicas ao vivo, Venus: Still Orbiting.

Pela primeira vez, ao invés de ter uma capa extremamente simbólica, há apenas um retrato de Tori, possivelmente extraído de uma performance ao vivo, mas retingida de uma forma mais moderna e artística. O álbum foi completamente produzido e composto por Tori.
Faz todo sentido que a primeira música e primeiro single do disco seja "Bliss", sendo uma das músicas mais dinâmicas e explosivas de toda sua carreira, construída sobre um singelo piano e ambientações eletrônicas, marcadas por um refrão eletrizante. A música funciona como um epicentro para o disco e dá o tom à obra como um todo. Sua letra fala sobre como as pessoas gostam de interpretar e distorcer os pensamentos/falas de outrem, algo que a própria Amos pôde atestar bem ao longo da sua carreira. "Bliss" reverbera triunfantemente a maneira como Tori conduziu sua carreira até aquele momento. A música fez grande sucesso nas rádios de segmento alternativo, mas nunca foi lançada oficialmente no UK, base de maior êxito comercial de sua carreira. O motivo segue desconhecido.
Logo em seguida começa "Júarez". A música foi inspirada após Amos, conforme entrevista para a A.P. Magazine, ler a respeito de uma cidade no México onde CENTENAS de mulheres eram levadas ao deserto, estupradas e brutalmente assassinadas, uma onda de feminicídio em que o governo local sequer se deu ao trabalho de se mobilizar. A música foi escrita da perspectiva do deserto, ao testemunhar o caso. Envolta numa pesada nuvem de rock industrial e vocais opacos, é uma das faixas mais densas do disco. A terceira música, e quarto single do disco, é a cativante "Concertina", e faz referência ao instrumento de mesmo nome. Liricamente, a música usa esse instrumento como uma metáfora sobre a sensação de desconforto ou não pertencimento social que acompanha muitas pessoas. Durante sua gravação, Amos combinou piano acústico com programação de bateria eletrônica visando representar a dicotomia descrita na letra, a construindo "partícula por partícula".
A quarta canção do disco, e terceiro single em geral, é a "Glory Of The 80's". Ambientada em um eletropop dark e sintético, a música faz uma homenagem aos anos 80, como nas palavras de Amos, "uma década honesta", sendo ao mesmo tempo uma crítica ao que a mesma chamou os anos 90 de "uma década onde há um grande vazio na arte e pessoas com visão se foram; Tudo é manufaturado ou movido por ego". A música flerta com a ideia de luzes e sombras, sob a premissa de que, o que é "sombra" para um pode ser "luz" para outro, ou vice versa.
A próxima música é uma das favoritas dos fãs, a sublime "Lust", que fala sobre o relacionamento de Tori com seu marido, Mark. Título autoexplicativo. Em seguida, há "Suede", calcada em sintetizadores, percussão simplista e ambientação esparsa; No fim da faixa há uma quebra de tensão, ao se incluir mais livremente piano, bateria e guitarra, com os instrumentos mais audíveis e menos sintetizados que em toda a base da música. Sua letra fala sobre conflitos e como cada pessoa gera perspectivas em sua mente a respeito do propenso antagonista, seja verídico ou não. A sétima música é "Josephine", com sua marcante bateria e piano, inspirada pela falecida esposa de Napoleão Bonaparte. A música foi composta como se o próprio Napoleão estivesse escrevendo uma carta para sua esposa, estando ele na guerra contra a Rússia. Façanha deve-se à sua incrível habilidade de realizar grandes peças de storytelling.
"Riot Proof" é uma faixa de pop rock, com flertes de sintetizadores emulando ritmos indianos em seus breaks. A música abriga diversas interpretações, mas a mais comumente aceita é a de que a música é de fato uma "revolta": contra homossexuais que se comportam como racistas, contra mulheres que apoiam o patriarcado, e assim por diante. É uma rejeição ao papel de vítima e um forte abraço na direção da autovalorização.
A nona música é "Datura", com seus impressionantes 8 minutos de duração, a respeito da alucinógena planta do mesmo nome, e fala sobre como podemos ficar reféns de algo que causa bem estar, e ainda assim provoca mal a longo tempo.
Outro ponto importante é a música "Spring Haze", composta apenas de um piano acústico e percussão semi acústica, além de ter uma das melodias vocais mais agradáveis da carreira de Tori, a música serve de base para o que seria uma nova reinvenção na carreira de Tori, conforme veremos nas resenhas à frente. A estrutura roadie e windy, serviu de ponte para Scarlet's Walk, lançado em 2002.
A música que encerra o disco, e a fase dourada de Amos na música nos anos 90, é "1000 Oceans", segundo single do disco, é uma das mais emocionantes da carreira de Amos. A música rendeu a Tori mais um hit internacional. A faixa foi escrita com a intenção de ajudar o marido de Amos, Mark, a lidar com a morte de seu pai. Mas além de falar sobre esse caso em específico, a música fala sobre perdas e ganhos, amores não correspondidos, a fragilidade da vida e temas similares.
Na segunda metade do disco, Venus: Still Orbiting, encontramos algumas das melhores versões ao vivo da carreira de Amos, ambos extraídos da lendária turnê de 98 Plugged Tour, onde a mesma deu uma nova roupagem a diversas músicas do seu repertório, dando um aspecto muito mais urgente e edgy para as apresentações. A energia contagiante de Tori e sua banda nas faixas, retificam o papel desta turnê como uma das mais brilhantes já realizadas na história. Destaque para as performances de "Bells For Her", "Sugar" e "The Waitress".
O disco vendeu a marca expressiva de 1 milhão e 300 mil cópias vendidas mundialmente, e gerou a bem sucedida turnê "Five and a Half Week Tour", sendo co-headliner com Alanis Morissette. Posteriormente, Tori embarcou na turnê "To Dallas and Back". Algumas das apresentações mais emblemáticas de Amos se deram justamente neste período.
Em seu quinto álbum de estúdio, Tori Amos não trouxe algo novo para a mesa, mas simplesmente expandiu as molduras das suas experimentações com música eletrônica, resultando numa nova coleção extremamente eficaz e competente de músicas, sendo todas excelentes para ser apresentadas ao vivo, servindo apenas para arrematar o histórico de Amos como uma das peças centrais da música alternativa nos anos 90.



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