Tori Amos - Strange Little Girls (2001)
- Bruno Fernandes

- 25 de mar. de 2020
- 3 min de leitura
Começar uma nova década apresentando para o público um disco de regravações certamente não é a estratégia mais brilhante de todas, mas aqui se faz uma exceção. Neste ponto de sua carreira, Tori Amos já era uma artista estabilizada, com seu próprio legado e identidade artística, no status de lenda viva inclusive, mas apesar de sua rentabilidade, a cantora estava com um relacionamento desgastado com sua (então) gravadora, Atlantic Records. Como estratégia para finalizar seu contrato, sem dar novos hits à gravadora, Tori decidiu gravar um dico inteiramente de covers.

Concebido como um álbum conceitual, Tori reinterpretou canções originalmente de artistas/grupos masculinos sob um perspectiva feminina, dando uma personalidade a cada canção. Isso se refletiu nas capas do disco, sendo que a cantora fez quatro capas diferentes, representando quatro personagens do disco. Sonoramente, o disco não diverge muito do que foi apresentado em "To Venus and Back", variando de apresentações solo ao piano, para canções calcadas em trip-hop ou rock, e as músicas escolhidas variam dos mais diferentes gêneros, desde The Velvet Underground e Beatles até Slayer e Eminem.
O disco começa com uma regravação de "New Age", do Velvet Underground, na voz de Lou Reed, e além de ser uma boa referência para abrir os trabalhos de Amos nos anos 2000, é uma das faixas mais brilhantes do disco, com um recurso vocal\emocional extremamente cativante, como uma slowbuilder. Em seguida, a interpretação de Tori para "´97 Bonnie & Clyde", de Eminem, chama bastante atenção por ser uma pista falada, com orquestração alegórica em momentos chaves/climáticos da música. A terceira música é "Strange Little Girl", do The Stranglers. Foi a única música do disco lançada como single oficial e é até hoje uma favorita entre os fãs. A música é um pop/rock de refrão marcante e com certeza uma boa adição para o catalogo ao vivo de Amos.
Então, um dos encontros mais surpreendentes e esperados têm início: Tori Amos meets Depeche Mode, através da regravação de "Enjoy The Silence". Assim como Amos, Depeche Mode é um dos grupos que mais têm costume de falar de temas religiosos/espirituais através de suas letras, e ambos compartilham uma base de fãs em comum. Tori dá a música uma roupagem minimalista, somente ao piano, dando uma nova visão desse clássico, similar ao que ocorreu com "Smells Like Like Teen Spirit", do Nirvana, em 1992.
A próxima música é "I'm Not In Love", da banda de rock 10cc, que aqui assume a forma de uma faixa de trip-hop, arrastada e implosiva.
Outro grande destaque do disco é a versão para "Rattlesnakes", de Lloyd Cole and the Commotions, que nesta rendição flerta entre o pop, o country e o soft rock. Uma das apresentações mais agradáveis de Amos até então. Em "Time" de Tom Waits, ela apresenta mais uma balada cortante, apesar de simples. E há o pop rock com vocais exagerados de "Heart Of Gold" (Neil Young). Talvez o bloco que passe mais batido do disco, apesar da competência inata.
O disco recupera fôlego em "I Don't Like Mondays", do The Boomtown Rats, onde apesar de Amos apostar no minimalismo, acerta em cheio, e entrega uma faixa positiva, mas ao mesmo tempo sarcástica, onde a eficiência de Amos como interprete se prova mais uma vez. Tori aposta no experimentalismo para sua versão de "Happiness Is A Warm Gun", onde, apesar da boa iniciativa, a cantora peca pelo excesso, chegando a quase 10 minutos de ambientações e instrumentais. Em seguida, há a versão para "Rainning Blood", do Slayer. A música têm um som denso, pesado e sombrio, apesar de não haver uma guitarra sequer, e a reafirma o poder de Amos em dissecar qualquer música e deixar sua impressão digital bem clara. O álbum se encerra com "Real Men", de Joe Jackson, e é certamente a melhor escolha para encerrar o disco, tendo o "mood" que eventualmente evocaria a produção de um disco futuro de Amos.
Strange Little Girls foi a última vez em que vimos Tori Amos, de acordo com a sonoridade e estatura dos anos 90 e encerra um capítulo muito especial da carreira de Amos. Apesar de nem sempre acertar, o disco ainda traz algumas versões impressionantes, vendeu cerca de 1 milhão e 200 mil cópias, e serviu para sacramentar o costume de Amos em sempre apresentar covers em suas apresentações ao vivo.



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