Tori Amos - Scarlet's Walk (2002)
- Bruno Fernandes

- 27 de mar. de 2020
- 7 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2020
Em seu sétimo álbum de estúdio, Scarlet's Walk, Tori Amos nos entrega sua última grande e derradeira reinvenção. Ao invés de apostar em suntuosas orquestrações, experimentalismos, canções dirigidas por rock ou estruturas eletrônicas, Tori criou uma imagem totalmente nova para si, despindo-se dos adornos e abraçando uma roupagem semi acústica e deliciosamente acessível e pop, mas claro, com toda a sua elegância.
Concebido como um álbum conceitual, o disco narra a história de Scarlet, uma personagem fictícia (vagamente inspirada em Amos), e suas viagens pela America. Aqui, Amos fala sobre uma América mitológica, pós 11 de setembro, transitando sobre eventos passados e preocupações com o futuro, estórias sobre americanos nativos/indígenas, Oliver Stone, Andrew Jackson, e muito, muito mais. O conceito, inclusive, é inerente na capa. A impressão de o vento estar soprando, o calor da estrada, e tudo mais, convida o ouvinte para uma viagem inesquecível.

A viagem começa com "Amber's Wave", inspirada pela personagem da atriz Julianne Moore em Boogiee Nights, com seu tom suave e levemente dançante, mas não se engane: A música trata da America nativa como sendo um lugar puro e cheio de esperança, até o homem branco vir e manipular a cidade e o povo, os "prostituindo". A música coloca como se Scarlet estivesse tentando convencer sua amiga, Amber, a não perder a esperança num futuro melhor. Sua letra, relata como os EUA foram transformados em algo que seu povo não reconhece mais, de "um lap dance direto para um vídeo", a elite transformou o país numa espécie de pornstar, um glamour altamente passageiro, falso e autodestrutivo. A música faz diversas referências ao poema "Not Waving, Drowning", de Stevie Smith. Claro que qualquer música sobre problemas internos de uma nação tida como soberana sempre vai soar melhor com um grande e melodioso refrão. Dever cumprido!
A segunda faixa, "A Sorta Fairytale", foi lançada como o primeiro single oficial do disco e é até hoje um dos maiores sucessos internacionais da carreira de Amos, reapresentando-a para toda uma nova geração. Considerada uma das letras mais românticas de Tori, a faixa fala sobre manter-se aberto para o amor, apesar da montanha russa que isso é, que apesar dos desafios, é um empenho extremamente recompensador. Disserta sobre como somos formados pelas coisas que acontecem ao nosso redor e ao longo da nossa vida, e celebra as dores e alegrias de amar.
Em seguida, o epicentro do disco, "Wednesday" têm início. Talvez uma das faixas mais curtas (e efetivas) da carreira de Amos, em seus singelos 2 minutos e 30 segundos, vestidos com sua sonoridade uptempo, numa espécie de jazzy meets Broadway. É uma ode a vida cotidiana dos Americanos, e pode ser facilmente comparada a "A Day In The Life", dos Beatles. O tom um tanto satírico da música, leva a refletir sobre a brevidade da vida e em como ela é administrada, no tom mais "Eclesiastes" ou filosoficamente estoico possível.
Logo após, "Strange", que foi lançada como quarta música de trabalho do disco, talvez seja uma das canções mais vulneráveis do catalogo de Amos, falando abertamente de um amor mal resolvido, ou de um relacionamento em que apenas a protagonista, Scarlet, demonstrava sentimentos, e em como isso afetou a vida da mesma. Curiosamente, a musica também se aplicaria ao sentimento de ser um estrangeiro no próprio pais, lançando luz sobre as segregações internas dos EUA.
A quinta faixa do disco é "Carbon", sustentada e dirigida por uma estrutura de percussão extremamente complexa, mas agradabilíssima, que vai crescendo pouco a pouco, e aposta nas sutilezas, ao invés de um refrão explosivo. Entre metáforas sobre química, diferentes estados e processos do Carbono como um elemento, Tori fala sobre problemas mentais e emocionais como transtorno bipolar, e especificamente sobre uma amiga sua, que havia sido molestada por um parente, e como isso afetou a vida da mesma. Em correlatividade, a música pode falar também sobre os muitos problemas internos dos EUA.
Outro momento brilhante do disco é "Crazy", que além de ter vocalizações como landscape, pode ter seu sentido em duas direções diferentes: Uma, mais pessoal, fala sobre um relacionamento tóxico, onde uma das partes desenvolve uma devoção perigosa por outro indivíduo ou confunde as linhas entre amizade e amor romântico. Em contraponto, a aplicabilidade pode ser em como a infame união entre Estado e Religião "calam a razão" e facilmente desintegram valores morais e convicções ao seu bel prazer. Por que não, simplesmente "deixar a loucura ter sua vez?" "Not charmed at all."
O segundo bloco do disco começa com a interlude, à capella, "Wampum Prayer", onde ela fala sobre massacre de índios apaches. Daí têm início, "Don't Make Me Come To Vegas", terceiro single do disco, talvez uma das músicas menos comerciais do disco, mas uma das mais significativas para a narrativa. Na letra Scarlet recebe uma ligação de sua sobrinha, que está com problemas referentes a um namorado abusivo, algo que a própria Scarlet já teria passado, e se concentra na ligação entre ambas. A musica abre assim uma janela para a construção da personagem e ressignifica muitas das decisões ao longo do disco. Ademais, a música é uma grower, ou seja, cresce o apreço do ouvinte pela faixa à cada vez que a escuta. Relacionando com os EUA, a música parece falar do congresso e/ou grandes comerciantes como sendo esse "namorado abusivo". No fim, cabe ao povo utilizar sua democracia para decidir sair ou ficar na sua situação.
A faixa subsequente é "Sweet Sangria", é calcado no que poderia ser considerada uma canção de proporções de rock, mas com a sonoridade roadie e folky que permeia o disco, numa espécie de confronto entre americanos nativos e os cowboys, tidos como "The mask of those who call themselves The good guys". A faixa lança luz também sobre os conflitos com mexicanos. Um contraste se dá na faixa seguinte, a delicada "Your Cloud", com uma sonoridade dreamy e jazzy, onde Scarlet fala sobre como, mesmo passando muito tempo longe, seja da família, seja de si próprio (como quando preso num relacionamento que enubla sua vista), nós nunca estamos realmente desconectados de nossas origens. Conceitualmente, a música é uma luz de esperança em que, não importa quantos erros os EUA possam ter cometido, sempre há esperança de retornar a ser como era no começo.
Em seguida, "I Can't See New York" têm início. É a faixa que mais remete ao disco "Under The Pink", e brevemente rock oriented, até onde os limites da coesão do disco permitem. Inspirada pelos acontecimentos de 9/11, a música é composta da perspectiva de uma mulher que estava em um dos aviões que colidiram com as torres gêmeas, e retrata os possíveis sentimentos e pensamentos finais da mulher na circunstância. Musicalmente, em dados momentos a sonoridade da música simula a colisão do avião. Simplesmente uma canção arrasadora.
O último bloco do disco é aberto por "Taxi Ride", uma das canções mais acessíveis do disco e que acabou sendo lançada como segundo single oficial do álbum. Na música, a protagonista do disco, Scarlet, conversa com algumas mulheres em Chicago, que também haviam perdido amigos gays na morte. É provável que a música tenha sido inspirada por uma perda pessoal da cantora, seu amigo Kevyn Aucoin, e sobre desdobramentos de sua morte, como os conflitos entre a mãe de Kevyn e o marido dele, a cerca de bens e posses. A mensagem da música é que, todos estamos numa "corrida de Taxi" bem curta, chamada vida. "Estou feliz que esteja do meu lado, ainda". "Todos nós fomos puxados até o limite". Não há tempo para se apegar a pequenezas.
Em "Another Girl's Paradise", Tori entrega uma música pop e funcional, mas que fala sobre descontentamento. A música relaciona o que é "o medo de uma garota à noite" e pode ser "o paraíso para outra garota", a relatividade entre o que se é de desejo e o quão recompensador, ou não, esse alvo é. "A maneira como ela pinta o mundo... eu quero isso em minha vida". Desejar algo de bom que outra pessoa têm não é necessariamente algo ruim, a depender de qual reação isso provocará em você. Logo após, "Virginia" disserta sobre os conflitos entre o homem branco e os indígenas, e o nome Virginia foi escolhido justamente por ter sido um dos primeiros estados onde esses conflito aconteceram. A música fala sobre como o povo nativo "traiu a si mesmo", e deixa implícito o gosto de arrependimento e autorreflexão.
A viagem se encerra com "Gold Dust", o único momento do disco onde a forma clássica de Tori Amos aparece, sendo uma balada ao piano e uma grandiosa orquestração. A música conclui o disco, olhando para além do seu estado atual, de forma utópica. Tematicamente, a música fala sobre se colocar no lugar de outros, e coloca a America como centro de uma discussão quanto a abraçar o futuro, vendo-se como mais que habitantes de um estado em específico, mas de forma bem cosmogona, como cidadãos do planeta. Nostalgia? Morte? Arrependimento? Todos podem se enquadrar nas arestas da música. Ela reconhece o passado e abraça o futuro. Todo o contexto de globalização certamente deixará uma marca nos EUA, assim como nossas experiencias individuais deixarão em nós.
Scarlet's Walk foi o primeiro disco de Tori Amos em sua nova gravadora, a Epic Records, e seu sucesso absoluto, tanto por parte da crítica quanto par parte do público, serviu para mostrar, não só que Amos ainda tinha fanbase bastante sólida, mas que a mesma ainda era uma força a ser reconhecida no mercado e ainda estava em pleno controle da direção artística da sua obra. Além de todo o impacto cultural, o disco vendeu mais de 1 milhão e 500 mil cópias e resultou nas turnês on Scarlet's Walk Tour e Lottapianos Tour. Tori também teve sua icônica e aclamada apresentação ao vivo no especial Soundcheck, em 2003.
A fase foi tão prolífica, que além das 16 músicas que compoem o disco, foi lançado um EP chamado Scarlet's Hidden Treasures, com faixas que foram deixadas de fora do disco, todas com grande qualidade, em destaque para "Ruby Through The Looking Glass", "Seaside" e "Tombigbee".
Todos os discos que Amos lançou após Scarlet's Walk foram polarizadores, por vezes agradando os fãs e críticos e por vezes causando estranhamento. Essa foi a ultima vez, até Night Of Hunters (2011), em que ela conseguiu uninamidade na recepção de sua obra, mas nunca repetiu esse ápice comercial. De qualquer forma, seu impacto reverbera até hoje.
Abandonar todos os elementos que a tornaram conhecida nos anos 90 foi um passo arriscado e muito corajoso, e nesse caso, resultado foi recompensador. Um disco conceitual, bem executado, extremamente inteligente e irrecusavelmente pop. Scarlet nos leva para caminhar através de uma America mitíca, numa verdadeira odisséia moderna, vislumbrando o futuro e aprendendo com o passado.






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