Tori Amos - Little Earthquakes (1992)
- Bruno Fernandes

- 29 de fev. de 2020
- 5 min de leitura
Qual o lugar da mulher no mundo? Ao longo das eras, isso têm sido respondido de diversas formas. A sociedade, a religião institucionalizada, o mercado de trabalho, tudo em fim, parece relegar à figura feminina a um papel de coadjuvante, ou ainda pior, de criatura vivente de segunda classe. Apesar de muita repressão, a história está cheia de mulheres corajosas que ousaram querer mais, ser mais, viver mais do que lhe era imposto. Nos tempos modernos, pelo menos no que se refere à indústria musical, uma dessas heroínas é a cantora americana Tori Amos.

Criada por uma família nominalmente cristã (seu pai, inclusive, é um pastor), Amos sempre esteve muito exposta a forma de pensar da cristandade e começou a aprender música desde os 3 anos de idade. Curiosamente suas primeiras apresentações foram feitas em clubes dedicados ao submundo LGBTS. Em sua formação musical, nomes que vão desde Mozart e Beethoven à Led Zeppelin, Rolling Stones e Kate Bush. Em 1986, formou sua primeira banda com tentativa reconhecida de chegar ao mainstream, Y Kant Tori Read, que lançou apenas um disco em 1988. Devido à baixas vendas, o grupo foi encerrado. Mas Amos ainda tinha um contrato de 6 discos pela frente. A mesma continuou efetuando pequenos shows, sendo que, ao voltar de um destes, sofreu um abuso sexual. Esse incidente mudou uma chave na vida de Tori para sempre. Estava desenhado o pano de fundo de seu disco de estreia como artista solo, Little Earthquakes.
Algum tempo após, a cantora se isolou para trabalhar no que viria a ser seu primeiro disco solo, Little Earthquakes, contando com a produção do ex-Tears For Fears, Ian Stanley, e transformou toda aquela raiva e aquele medo, através de uma verdadeira catarse, numa espécie de voz para mulheres que passavam pelo mesmo trauma. De início, a sua gravadora rejeitou o disco, e planejava substituir seu tão proeminente piano por guitarras, para torná-la similar a Tracy Chapman; Tori recusou, ameaçando abandonar o contrato. Após muita insistência, Amos recebeu carta branca para trabalhar com outro produtor, Davitt Sigerson. Tanto ela como seu colaborador (e então namorado) Eric Rosse, criaram um dos discos mais importantes de todos os tempos.
Começando pela capa, onde vemos uma versão "gigante" de Tori, pronta pra sair da caixa, do que se espera dela como artista e como mulher. O piano e a caixinha à qual as mulheres são relegadas, são "pequenos demais" para a mesma. Uma ideia desafiadora para os padrões da época.
A começar da primeira música, "Crucify", que foi lançada como quinto single do disco, que apesar de não ter entrado nas paradas dos Estados Unidos, rendeu a Amos a #15 posição no Reino Unido e se tornou um hit por toda a Europa. A música é carregada fortemente de temas religiosos, e nos entrega logo no começo frases como "Cada dedo nesta sala está apontando pra mim. Eu quero cuspir na cara deles, mas tenho medo do que isso pode trazer". O medo da repressão e coerção é real, não só para ela, mas para cada mulher. "Tenho uma bola de boliche no meu estômago, um deserto em minha boca. É esperado que minha coragem escolha se vender agora", disserta sobre sabotagens, ansiedade e subornos para que a mesma suavize sua mensagem. Como um todo, a música discorre sobre a repressão da liberdade de expressão, ansiedade e auto julgamento, e assuntos interligados. Logo em seguida, "Girl" fala sobre a rotulação da sociedade para com mulheres tidas como "promíscuas". "Ela têm sido a garota de todos, talvez algum dia ela pertença a ela mesma". A falta de oportunidades e suicídio social vinculados a tais são abordados na letra. De fato, uma das peças mais tocantes do disco. A terceira música, "Silent All These Years", foi o segundo single do disco, e apesar de não ter alcançado grandes posições à época de seu lançamento, a música se tornou uma das mais emblemáticas e facilmente reconhecidas de seu repertório. A música fala sobre auto reflexão e conhecimento, mas também sobre o estupro sofrido pela cantora, contenda o icônico verso: "As vezes escuto minha voz, e ela esteve aqui, em silêncio por todos esses anos". Em 1992, A música foi utilizada para promover a ong RAINN, dedicada a combater o estupro e dar apoio as vítimas (em 1994, Amos se tornou a primeira embaixadora oficial da organização).
Em seguida, uma das músicas mais pesadas de Amos têm início, "Precious Things", com suas marcantes guitarras estridentes e bateria explosiva e linhas como "Então você acha que pode me fazer gozar? Isso não te torna Jesus." Um verdadeiro soco no que se entende como o "Alpha Male Modus Operandi". A quinta música, e quarto single em geral do disco, "Winter" fala sobre o relacionamento da cantora com seu pai, deixando claro que, a existência de um patriarcado e de uma cultura mutiladora e limitante, não apaga o fato de existirem homens amorosos, conforme a mesma retrata seu pai. E claro, sua ponte têm um dos movimentos orquestrais mais impactantes já vistos. "Flying Dutchman" é um dos seus sets acústicos mais brilhantes de todos, comparando a lenda do "Holandês Voador" com navios espaciais e coisas similares. A sétima faixa do disco, "China", foi lançada originalmente como terceira música de trabalho, fala sobre um amor perdido, de forma mais tradicional, e têm uma ponte climática, influenciada pela música oriental.
Outro ponto alto do disco é a música "Leather", que fala de sexo de forma bastante elegante, bem como dos efeitos colaterais na mente de mulheres que sofreram violência sexual, especialmente quando essas encontram um conjugue. Em "Mother", a cantora discorre sobre seu relacionamento com sua mãe, e têm uma de suas melodias mais acolhedoras e agradáveis. A décima música, "Tear In Your Hand", é uma pop ballad que facilmente teria sido um hit nos anos 80. Em "Me And A Gun", primeiro single do disco, a cantora fala abertamente sobre a experiência traumatizante que teve em Los Angeles aos 21 anos. Sem piano ou qualquer outro instrumento, a voz de Amos é o condutor. O disco tradicionalmente se encerra com "Little Earthquakes", a faixa título, com seus mais de 6 minutos de duração e um clima atmosféricamente pesado, deixando na mente do ouvinte a seguinte frase "Give me life, give me pain, give myself again".
Além disso, cada uma das músicas que ficou de fora do disco tinha potencial sólido o bastante pra formar um novo disco, tão poderoso quanto o oficial. Menção honrosa a músicas como Sugar, Mary, Take To The Sky, Sweet Dreams, Thoughts e tantas outras.
Ao olhar para trás, para um disco que foi lançado em meio ao auge do grunge, e precisamente na mesma época que Nevermind do Nirvana (Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, inclusive se tornou um grande admirador de Amos), é notável o alcance desse álbum. Não tanto pelas mais de 6 milhões de cópias vendidas mundialmente, mas pelo poder libertador da obra. Tori Amos deu voz a inúmeras mulheres, e pela primeira vez desde Patti Smith, trouxe temas como religião, aborto, estupro e muito mais para discussão no mainstream. Ao invés de ceder aos apelos da gravadora, se recusou a ser mera versão feminina de Elton John, mas pavimentou um caminho completamente novo para as mulheres na música. De fato, os terremotos criados por esse disco podem ter sido qualquer coisa, mas certamente não foram pequenos.



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