Tori Amos - From The Choirgirl Hotel (1998)
- Bruno Fernandes

- 8 de mar. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 18 de mar. de 2020
Em seu quarto álbum de estúdio, Tori Amos leva o seu trabalho para uma nova dimensão. Começando o processo de gravação ainda em 1997, após uma turnê bem sucedida e a gravação de seu MTV Unplugged, Amos gravou pela primeira vez com uma banda de rock completa ao invés de se basear apenas na sonoridade minimalista de seu piano, e expandiu os limites de sua produção por adicionar diversos elementos de música eletrônica e experimental para o álbum.
No intervalo entre 1997 e 1998, Amos sofreu três abortos espontâneos, que lhe deixaram devastada. Esse tema permeia o disco inteiro, expondo os sentimentos de Tori quanto a essa perda dolorosa. Decidida a se desprender das grandes gravadoras, Tori transformou o celeiro de sua casa em Cornwall em seu próprio estúdio, batizando-o de Martian Engineering Sound. E lá, gravou e produziu este fantástico disco. Em fevereiro de 1998, Amos casou-se com o engenheiro de som Mark Hawley, seu parceiro musical de longa data.

A capa do disco foi elaborada pela fotógrafa britânica Katerina Jebb, que representa diversas fotocópias coloridas de Tori em tamanho real, usando roupas de alta costura como que escaneadas por uma fotocopiadora do tamanho de uma pessoa. Uma espécie de raio x. A imagem, assim como a sonoridade, ajuda a passar a sensação de entorpecimento, transparência e vulnerabilidade.
O disco começa com uma peça chave, "Spark", lançada como primeiro single, que se tornou um verdadeiro hit na europa, chegando a #16 posição no UK. Através da guitarra e sintetizadores, Tori fala sobre alguém estar viciado em Nicotina, como forma de anestesiar a dor. É uma das canções aonde ela fala mais abertamente sobre sua perda. O verso "Ela está convencida de que poderia manter uma geleira, mas não poderia manter um bebê vivo", é deveras impactante e conforme ela descreveu numa entrevista para a Q Magazine, "uma vez que você sente vida em seu corpo, você nunca volta a ser uma mulher que nunca carregou vida. A outra coisa é sentir que há algo dentro de você quê está morrendo, e você não. E não há como evitar, por mais que tente."
Logo em seguida, vêm "Cruel", com sua excêntrica programação de bateria e baixo sujo e bem definido. Filtros e efeitos vocais dão a música um tom de espaçamento. A música foi lançada como quarto e último single do disco. Sem dúvida, uma das melhores incursões de Tori no rock. A terceira faixa, "Black Dove (January Girl)", que apesar de começar como uma balada, se torna uma faixa explosiva no refrão Grande destaque é a elaborada e complexa estrutura da bateria. A inspiração para essa música veio de um pesadelo de Tori. A ideia era de criar uma sonoridade como que, vendo um um carro vindo lentamente em sua direção, e você nunca sabe se a colisão realmente irá acontecer.
A próxima música, "Raspberry Swirl", é uma música de pop rock com fortes influências de música dance e eletrônica. Foi lançada como terceiro single do disco, e teve boa recepção nas paradas de música dance. A música fala sobre sexo, mas com toda a classe provenientede sua autora. Logo após, vêm "Jackie's Strengh", que fala sobre os medos de Tori quanto ao matrimônio, mencionando que, uma parte simplesmente beberia e fugiria da cidade ainda usando o vestido branco, e outra teria a coragem necessária de ir até o fim. Em entrevista, Amos mencionou que quando John F. Kennedy morreu, sua avó a colocou no chão, por estar chocada com a notícia, e que se lembra de ouvir ela dizer "Jackie(a esposa do presidente) precisa ser forte". É a esse acontecimento que ela se refere nos versos "Shots rang out, the police came".
A sexta música do disco é a "I I E E E", que por horas soa como uma faixa tropical e por horas soul, mas não se engane; Há referências por toda a parte sobre a perda de seu bebê como sendo um "sacrifício". "Is It God's? Is It Yours?", indaga Amos. Em seguida, a faixa de jazz experimental, "Liquid Diamonds", se referindo ao processo do aborto como uma perda de algo precioso, considerando como "diamantes líquidos" o sangue, o feto, etc. Versos como "guess i'm an underwater thing" revelam o que seria o pensamento do feto, de que era algo que deveria ficar apenas submerso, e nunca experimentaria o ar. Então, começa a sombria "Purple People", narrando a história de Betsy Brown, uma garota que costumava torturar a si mesma, ficando cheia de ematomas roxos, e que, para disfarçar, perguntava as pessoas "Hey, do you do judo? I do". Uma alusão a como nós mesmos muitas vezes criamos justificativas para autoabusos.
Em "Northern Lad" Tori encerra o capítulo de sua vida com Eric Rosse, de forma muito mais branda e ponderada do que em Boys For Pele, e é uma forma terna de finalizar esse livro. Logo em seguida se inicia "Hotel", talvez a faixa mais experimental da carreira de Amos, com as complexas interpelações eletrônicas, mudanças de ritmo e alternações entre instrumentos ao vivo. Talvez, um dos momentos mais dilaceradores do disco seja "Playboy Mommy", onde Amos externa de forma comovente sua inconformância quanto à morte de seus filhos, em versos como "Estou aqui de pé sobre sua cova; Aqueles anjos nunca poderiam me substituir". O saxofone que inicia a música talvez seja um dos mais marcantes do disco. O disco termina com "Pandora's Aquarium", de forma magistral, uma música, conforme a propria Amos mencionou "uma busca embaixo de todas as pedras no mar, para entender esses sentimentos escondidos e trazê-los de volta a essa doca, metaforicamente."
Sobre o conceito do disco, Amos disse em entrevista para a British Airways Highlife Magazine que: "o Choirgirl Hotel se refefe a um lugar simbólico, onde as canções 'vivem', e que apesar de estarem gravadas, elas podem ser remodeladas ao vivo". Tori as imaginou vivendo suas próprias vidas e apenas coexistindo nessa espécie de Hotel.
Tori deu continuidade ao seu auge, comercial e artistico, repetindo a façanha de vender 1 milhão e 500 mil cópias mundialmente, além de incorporar novos estilos musicais e expandir sua arte para novas dimensões. O álbum rendeu uma de suas turnês mais bem sucedidas e lucrativas, a icônica 98 Plugged Tour. Pela primeira vez, Tori levou uma banda completa para o palco, e acompanhada de Matt Chamberlain (na bateria), Jon Evan (no baixo) e Steve Caton (na guitarra), reimaginou e remodelou diversas de suas músicas (que futuramente estariam inclusas em seu próximo disco, To Venus and Back).

Em "From The Choirgirl Hotel", Tori Amos traz o ouvinte para um oceano de sentimentos, onde a cantora compartilha cada uma de suas dolorosas e preciosas canções. Vale a pena revirar cada pedra.



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