Tori Amos - Boys For Pele (1996)
- Bruno Fernandes

- 8 de mar. de 2020
- 6 min de leitura
Se Little Earthquakes tornou Tori Amos uma estrela, Boys For Pele a sacramentou como uma lenda viva. Talvez, o movimento mais audacioso da carreira de Tori e o responsável por lhe conferir a reputação de uma artista autossuficiente, transgressora e corajosa. Ao invés de simplesmente reciclar ideias, Amos retornou com seu disco mais experimental e menos acessível de todos.

O disco bebe inspiração de diversas fontes, como a desintegração de seu relacionamento de 6 anos com seu namorado e parceiro musical, Eric Rosse, bem como o papel da mulher nas religiões ao longo dos séculos; Esse, aliás, é o tema que dá tom ao disco. O álbum, como um todo, questiona diretamente à religião o modo injusto e subserviente ao qual relega as mulheres. Em diversas entrevistas, Tori mencionou que as ideias para o disco estavam surgindo aos poucos, mas que ele começou a tomar forma mesmo após uma visita ao Hawai, onde a mesma foi apresentada a lenda da deusa do vulcão, Pele, que exigia o sacrifício de homens. De forma catártica e simbólica, Tori fez o mesmo em seu disco, "sacrificando" certos "homens" de sua vida bem como os sentimentos tóxicos associados e transformando-os em combustível para suas composições. O álbum foi gravado dentro de uma igreja na Irlanda e outra na Louisiana, justamente para destacar a sonoridade sombria e obscura do disco, dando ênfase aos instrumentos acústicos. Nunca antes, Amos utilizou uma gama tão grande de instrumentos variados e técnicas vocais como neste disco, bem como presenciamos um novo alcance em sua potência vocal. De acordo com a mesma, as igrejas são vistas como um lugar de repressão e supressão da individualidade, e gravar um disco como este lá dentro, foi um movimento de autoafirmação mais que necessário para a ela.

A cada toque pesado e rarefeito da interlude "Beauty Queen", a faixa inaugural, mantém o ouvinte como que num quarto escuro, desaguando na densa e sombria "Horses", que fala sobre como certas decisões, por mais bem acertadas que sejam, podem resultar em isolamento, e como nossas imperfeições tendem a distorcer nossa perspectiva sobre isso. Ainda assim, isso não muda o seu êxito. Logo em seguida, "Blood Roses", que como uma ferida aberta, externa alguns dos mais intensos sentimentos e ressentimentos de Amos contra Eric, em frases como "não posso esquecer as coisas que você nunca disse" e "as vezes você não é nada mais do que carne". Pequenos rompantes de guitarra sustentam a ponte da música, tornando-a ainda mais intensa. Então têm início "Father Lucifer", uma das músicas mais emblemáticas o disco, aonde além da melodia cativante, Amos mantém um toque clássico, com direito a instrumentos de sopro e orquestra, além de uma interpolação vocal surrealista, alá Kate Bush, na ponte da música. A frase "Nada vai me impedir de flutuar", funciona como um epicentro para o disco, tanto por destacar a inevitabilidade dos momentos tempestos como pela confiante atitude de manter-se em frente. O não se curvar mediante aos problemas, mas de enfrentá-los.
A quarta música do disco é "Professional Widow". Alternando em momentos de pura clareza e pura hostilidade, a música tem forte influência de Led Zeppelin e singelos toques de rock industrial. Apesar de nunca haver confirmação oficial a respeito de quem se refere a música, rumores apontam para Courtney Love e como a mesma capitalizou-se em cima do suicídio de seu então marido, Kurt Cobain. Além disso, Trent Reznor, vocalista do Nine Inch Nails, confirmou que um dos grandes hits de sua banda, "Starsfuckers, INC", dentre outros temas, também aborda sobre como Courtney teria contribuído para destruir a amizade entre ele e Amos. Inclusive, o título da música é uma referência a uma das linhas de "Professional Widow".
A faixa ganhou um remix no final daquele mesmo ano, e alcançou o #1 lugar nas paradas de música dance da Billboard Hot 100 e também #1 no chart oficial do UK.
O segundo bloco do disco começa com "Mr. Zebra", uma de suas melodias mais célebres e cativantes, que lembra uma peça musical teatral da Broadway. A sexta faixa do disco é a comovente "Marianne", que fala a respeito do suicídio de uma amiga de Amos, e lembra em grande estilo as baladas do Little Earthquakes e do Under The Pink, com direito a uma orquestra imponente.
Outro grande destaque do disco é "Caught A Lite Sneeze", escolhida como primeira música de trabalho, e que acabou por ser um dos maiores hits da sua carreira por toda a europa, atingindo também a #20 posição no UK. Além de sua extremamente complexa estrutura rítmica e alternâncias entre pianos, cravos e outros instrumentos, a música discute sobre insistir e dar o melhor em um relacionamento, que já se sabe estar morto. a contraposição do refrão nas frases "Building/Tumbling down" e "didn't know my love was so small, couldn't stand at all" deixam bem transparentes os conflitos internos numa relação assim.
Dando sequência, em "Muhammad My Friend", Tori questiona ao islamismo a atitude castradora e limitante impostas às mulheres sob sua jurisdição. Através de alegorias e metáforas, Tori repensa supostas certezas de seus dogmas. Logo após, começa a devastadora "Hey Jupiter". De longe, uma das músicas mais vulneráveis e dolorosas de sua carreira. Linhas como "Ninguém falando ao telefone, apenas eu e eu, e esse pequeno masoquista (o coração)" dão o que pensar. A música passa um imenso sentimento de perda. A faixa rendeu a Tori um outro hit pela europa e atingiu novamente a #20 posição no UK.
O terceiro bloco do disco começa com "Way Down", com o suporte de um coral gospel, um dos momentos mais brilhantes do álbum. Em seguida, "Little Amsterdan", com influência de jazz progressivo, Tori escreve numa vertente de Storytelling sobre infidelidade marital, traição, luxúria e um assassinato. A próxima música, "Talula", demonstra forte influência do R&B/funk de New Orleans. A música fala sobfe o conceito irrealista de uma "mulher perfeita" e o medo de perder o ser amado.
O último bloco do disco começa com "Agent Orange", e sua métrica verbal intuitiva, desembarcando em "Doughtnut Song" e "Putting The Damage On", ambas sobre relacionamentos autodestrutivos. Frases como "Você nunca ganhará peso comendo Donuts", destacam o fato de que, para nos sentir completos ou satisfeitos numa relação, a aparente beleza ou outro atrativo não constitui em algo sólido, e nao nos fará sentir-nos completos. Além disso, metáforas como "Você me disse ontem a noite que é um sol, d têm seu próprio satélite devotado", destacam como é fácil a codependencia numa relação pender para o abusivo. "Você ainda é lindo, mesmo quando você impõe dano". A mensagem das duas músicas destacam que, por mais que haja sentimento ou ressentimento, não há recompensa em se negligenciar. Por último, "Twinkle", que fala sobre a importância de as garotas poderem enxergar "outras estrelas" no "céu" e para que possam almejar também pavimentar o próprio caminho. Não um mero satélite, mas detentora de sua própria luz.
Mais uma vez, a capa elaborada para o disco representa brilhantemente a ideia contida nele: Pense no pano de fundo rústico, como era o mundo em 1996 (E ainda o é). Pondere a respeito da serpente, próxima a cadeira de Amos, simbolizando o mau, sempre a espreita. Note os pés sujos de lama, em representação do longo caminho percorido e do esforço laborioso que foi necessário para chegar ali, bem como nos rasgos na roupa, aludindo as cicatrizes e danos colaterais carregados. Note as caças penduradas, referência aos êxitos conquistados. E por último, note o olhar de Amos. Sereno e confiante. Não ache que ela hesitaria em atirar em qualquer coisa que ficar em seu caminho. A capa é exatamente como o disco: Mordaz, Feroz e Corajoso.
Apesar de ter sido um disco polarizador, comercialmente falando, com suas 1 milhão e 600 mil cópias vendidas mundialmente, foi através deste disco que Amos ganhou essa aura de "Bigger than life". Foi a primeira vez que ela escreveu e produziu um disco inteiramente sozinha. E é também a primeira vez que ela apresenta um disco tão longo, com 18 músicas.
Em Boys For Pele, Tori deu início a uma nova fase de sua carreira, não mais como apenas uma superstar, mas um ícone. Transformando situações provadoras em combustível para sua arte, Amos fez jus ao verso "Você não viu fogo, até ver Pele explodir".



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