Secos & Molhados - Secos & Molhados (1973)
- Bruno Fernandes

- 8 de abr. de 2020
- 5 min de leitura
Os anos 70 parecem ter sido uma das décadas mais desafiadoras e recompensadoras da história da música. No Brasil, enfrentávamos então a ditadura militar e uma forte repressão da liberdade de expressão. Curiosamente, nesta mesma época diversos artistas, estética e/ou liricamente, transgressores começaram a surgir/se apresentar, dando voz a toda uma geração. Neste caso especificamente, destaca-se a banda Secos & Molhados.

Formada em 1970 por João Ricardo, tinha na sua formação clássica o próprio João (Violão, vocais e harmônica), Ney Matogrosso (vocais), Marcelo Frias (Bateria e percussão) e Gerson Conrad (vocais e violão). Após algumas apresentações ao vivo, a banda gravou em 1973 seu primeiro auto intitulado e antológico disco de estúdio. A banda se tornou uma das maiores referências do vanguardismo musical brasileiro, colocando Ney Matogrosso como o primeiro e mais influente "Showman" propriamente dito das terras tupiniquins. Musicalmente, o disco sincretiza e se apropria de maneira bem antropofágica as poesias de Vinícius de Moraes, João Apolinário e Manuel Bandeira, e inúmeras referências do folclore, tradições e danças brasileiras e portuguesas. Unindo rock progressivo, regionalismos sertanejos, pop, psicodelìa, folk, jazz e baião, a banda assumia um papel importante no cenário musical após o fim do Tropicalismo, tendo, além do trabalho de Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros, os próprios Beatles como referências.
A capa do disco é um show a parte, sendo uma das mais icônicas mundialmente falando, foi produzida pelo fotógrafo Antônio Carlos Rodrigues, baseado no próprio nome do grupo, que produziu uma mesa de jantar com produtos vendidos num armazém, como cebolas, linguiças, vinhos, broas, grãos de feijão e afins. Colocou também o nome do grupo em letras roxas brilhantes na mesa. E em quatro bandejas, as cabeças dos membros da banda. O grupo fora então maquiado, tem que, posteriormente seria uma das marcas mais características do grupo, que agora, além das roupas e apresentações extravagantes, teria a maquiagem como forte característica.
O disco começa com "Sangue Latino", que se tornaria o maior sucesso do disco, com sua marcante linha de baixo, e em seguida os violões entram em cena dando um tom mais dramático e ligeiramente regionalista/sertanejo à faixa. Entre as frases, menções à progressiva mudança comportamental/filosófica do homem comum em países latinos. Linhas como "Quebrei a lança, lancei no espaço. Um grito, um desabafo. O que me importa é não estar vencido" "Meu sangue latino, minha alma cativa". Em dado ponto, é dessa exata forma que o homem latino se encontra, pós cabresto em jugo europeu e de seus próprios déspotas. Uma das faixas mais brilhantes de todos os tempos. Logo após, vem a música "O Vira", inspirada na dança portuguesa, com sua letra homenageando temas folclóricos, embalados num pop/rock aos moldes dos Beatles, Little Richard e a famigerada Jovem Guarda.
A terceira música é "O Patrão Nosso de Cada Dia", que começa com o ressoar de duas badaladas de sino, mas logo após têm o violão dedilhado como seu protagonista. A música poderia muito bem ter sido um hit na voz de Luiz Gonzaga, dado ao seu teor lírico que relembra muito um lamento nordestino. Versos como "Eu quero o amor da flor de cactus, ela não quis. Eu dei-lhe a flor de minha vida, vivo agitado" mostram uma forma de amor exposto ao ruralismo e asperezas da não correspondência. O amor é, por vezes, um amo cruel. "O patrão nosso de cada dia, dia após dia." Destaque para a flauta de Sérgio Rosadas em seu encerramento. Em seguida, o pop/rock de "Amor", conta com sua encantadora linha de baixo, aposta em abstracionismo para desfazer os clichês do romantismo, em linhas como "Leve, como leve pluma. Muito leve pousa, na simples e suave coisa. Suave coisa nenhuma". Auto explicativo.
Em "Primavera nos Dentes", o jazz e o rock progressivo se cruzam, dando à música instrumental o protagonismo, e aos versos um papel de coadjuvante, com a guitarra de John Flavin brilhando. A música fala sobre a necessidade de lutar pelo que te faz feliz, através de versos como:
"Quem tem consciência para ter coragem Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem Inventa contra a mola que resiste Quem não vacila mesmo derrotado Quem já perdido nunca desespera E envolto em tempestade, decepado Entre os dentes segura a primavera"
De fato, raramente haverá circunstâncias perfeitas, mas o que você faz com que está disponível é o que faz toda a diferença. Ser feliz, e sobreviver, é uma escolha, e deve se lutar por ela, "com dentes".
Com uma marcante percussão, a banda mistura em "Assim Assado" guitarras bem distorcidas com regionalismos da música nordestina, numa letra bem humorada e com diversos joguetes de palavras, liricamente falando de sexo e/ou assassinato por motivo político de forma bem descontraída. A próxima faixa é "Mulher Barriguda", onde o Blues e o Pop convergem num estilo semelhante às peças da Broadway, em uma letra pós duas guerras mundiais, falando na perspectiva de uma mulher, preocupada com o futuro de seu filho:
"Mulher barriguda que vai ter menino Qual o destino que ele vai ter? Que será ele quando crescer? Haverá guerra ainda? Tomara que não!"
Com cerca de um minuto, a melódica "El Rey" fala sobre ascensão e queda, glória e infortúnio, enchendo a mente do ouvinte de imagens marcantes. Logo em seguida, começa "Rosa de Hiroshima", conduzida apenas pela emocionante interpretação de Ney Matogrosso e um belíssimo violão. A faixa é uma homenagem às vítimas do desastre da bomba atômica de Hiroshima, como alude o nome. Até hoje, é um dos maiores hits do disco e da banda. O Power Pop de "Prece Cósmica" surge em seguida, e apresenta uma das melodias mais marcantes do disco, sendo uma das faixas mais acessíveis da banda, com auxílio de cordas em sua ponte.
O bloco que encerra o disco é talvez o mais denso e reflexivo, e as três faixas finais conversam muito entre si. A começar por "Rondó do Capitão", que se assemelha bastante a canções folclóricas e/ou canções para teatro infantil, mas apesar dos versos sutis, a música incentiva o ouvinte assumir o papel de capitão da sua própria via:
"Bão balalão, Senhor capitão. Tirai este peso Do meu coração."
Logo após, com menos de um minuto, "As Andorinhas" flerta com música clássica, com seu "crescendo" intenso e marcante, desemborcando na brilhante "Fala'. A música é, da forma mais sútil que se pode ser, um protesto contra a censura, vestida como uma balada ao piano, com interpolações de elementos eletrônicos e orquestração suave, com versos como:
"Eu não sei dizer Nada por dizer Então eu escuto
Eu só vou falar Na hora de falar Então eu escuto"
As impressões que o Secos & Molhados deixou na música brasileira são nítidas. Além dos mais de 1 milhão e 500 mil cópias vendidas mundialmente, o disco rendeu uma turnê de muito sucesso. Futuramente, a banda lançaria apenas mais um disco com a formação original, e após isso, Ney Matogrosso sairia numa bem sucedida carreira solo, se tornando um dos maiores ícones da música nacional de todos os tempos, enquanto João Ricardo daria continuidade a banda. Sua atitude transgressora promoveu uma mudança no cenário pop nacional dos anos 70, carregando a tocha da Tropicália, após seu súbito fim em 1971, e transformando a MPB que se desenvolvia naquele momento.
Até hoje, a obra se destaca por ser única dentro do cenário nacional e internacional, e é considerado como o 5° melhor disco nacional de todos os tempos pela Rolling Stone e pela riquíssima herança visual e lírica. Apesar de sonoramente ser uma forma de pop psicodélico, a banda é referenciada como sendo rock devido à sua atitude transgressora, com exuberâncias performáticas, alusões à androginia e sexualidade, passível de ser entendida e admirada.



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