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Jorge Ben Jor - A Tábua de Esmeralda (1974)

  • Foto do escritor: Bruno Fernandes
    Bruno Fernandes
  • 8 de abr. de 2020
  • 6 min de leitura

Falar sobre o sentido da vida ou conhecimentos ocultos com a simplicidade e beleza que Jorge Ben Jor faz em "A Tábua de Esmeralda" está fora do alcance de qualquer um. Em 1974, Jorge já era um artista consagrado, com 10 anos de estrada e diversos hits no repertório e o mérito impar de ter criado um novo gênero musical, o samba rock. Entretanto, o cenário musical nunca pareceu tão competitivo e acirrado quando neste período; Ter que competir por espaço com nomes como Chico Buarque, Raul Seixas, Roberto Carlos, Wanderlea, Tim Maia e tantos outros em pleno auge, artístico e comercial, não era uma tarefa fácil. Mas, ao invés de se entregar a uma fórmula bem concebida, Ben Jor queria ir além em sentido musical.

Determinado a criar um disco que refletisse suas convicções pessoais, Jorge apresentou a ideia para sua gravadora, Phillips, que vetou logo de cara. Fazer um disco sobre agricultura celeste, alquimia e assuntos similares, ao invés de um disco pop de fácil consumo poderia ser considerado um suicídio comercial. Apesar da inicial rejeição, o cantor conquistou a simpatia do então gerente da gravadora, André Midani, que o apoiou na gravação do disco. Além de apostar em algo completamente diferente, ele também colocou em pauta outra coisa: a temática do disco. Àquela época, ninguém tinha a menor ideia do que era alquimia ou qualquer coisa relacionada ao assunto. Historicamente, A Tábua de Esmeralda é texto mais antigo e importante da alquimia, supostamente escrito por Hermes Trismegisto (legislador egípcio e filósofo), que de acordo com Helena Blavatsky: "A tradição declara que um isarim encontrou junto ao cadáver de Hermes, em Hebron, a tábua de esmeralda, expressando em poucas frases a sabedoria hermética." Mesclando ambientações, diálogos, samba fino e do bom, e por vezes, belíssimas orquestrações, Ben Jor fez de seu 11° disco de estúdio uma das obras mais importantes da história de música.

A música de abertura do disco é "Os Alquimistas Estão Chegando", com tom e energia de uma faixa ao vivo, descreve, na perspectiva de Jorge, as características e qualidades que Ben Jor mais admira neles: "Eles são discretos e silenciosos, moram bem longe dos homens, escolhem com carinho a hora e o tempo do seu precioso trabalho; São pacientes, assíduos e perseverantes". Assim, Ben Jor os constitui, num tom bastante otimista, em figuras quase mitológicas/heróicas. Logo após, em "O Homem da Gravata Florida" Jorge homenageia um dos médicos, químicos e alquimistas mais famosos, Paracelso. Alega-se que o químico visitava pacientes com uma echarpe colorida , mas os detalhes fantasiosos e bem humorados são totalmente crédito da fértil mente de Ben Jor. Mas claro que a genialidade e as referências aos ornamentos históricos, como os Jardins Suspensos de Babilônia, brilham através de frases como:


"Isso não é só uma gravata

Essa gravata é o relatório

De harmonia de coisas belas

É um jardim suspenso

Dependurado no pescoço"


A terceira música é "Errare Humanum Est", em referência a uma das frases de Santo Agostinho (Errar é humano, mas permanecer no erro é diabólico). Entretanto, a letra fala sobre a inata vontade humana de explorar o espaço. De onde vêm esse ímpeto? De fato, até hoje o homem sabe mais sobre o espaço do que sobe as profundezas do oceano. Baseada também no popular conceito de que os deuses da antiguidade teriam sido na verdade astronautas. Mas, que o ímpeto do homem ao buscar espiritualidade ou de entender o mundo que nos rodeia é comum a todos, e de fato, sempre procuramos saber mais sobre nossa "herança cósmica", e a existência de nosso Criador e Pai Celestial. A música esboça os empenhos humanos de tatear no escuro para entender o universo.

Em "Menina Mulher da Pele Preta", Jorge exalta a cultura negra e muda o foco para, como diria Salomão: "A delícia dos filhos dos homens: Uma dama, sim, damas." Um samba envolto em malícia e anelo, de um amor platônico entre o narrador, e sua tão almejada "mulher da pele preta, dos olhos azuis, de sorriso branco". Como ser mais humano que isso?

A quinta música, "Eu Vou Torcer", é uma canção de apelo ao bem estar da humanidade como um todo. "Eu vou torcer pela paz, pela alegria, pelo amor." Num mundo que sobreviveu a duas guerras mundiais e outros flagelos, algo assim fazia (e faz) todo sentido. Torcer pelo mengão, pela agricultura celeste, pelo meu amigo que sofre do coração, e diversos outros temas, relembra que, bem, coisas cotidianas também devem ser parte de nossa preocupação, com todo o direito de ser.

As homenagens a última criação de Jeová em seu sexto dia criativo, a Mulher, continuam em "Magnólia" e "Minha Teimosia, Uma Arma Pra te Conquistar". Versos como "O que eu quero mais? Se eu sei que a vida é bela e linda" e "A minha teimosia é uma arma pra te conquistar

Eu vou vencer pelo cansaço, até você gostar de mim, mulher" destacam o talento de Ben Jor como romancista, sem deixar seu jeito descontraído de lado. Em "Zumbi", Ben Jor exalta a cultura negra e coloca Zumbi dos Palmares numa posição heróica. A tristeza desvelada em frases como:


"Aqui onde estão os homens

Há um grande leilão

Dizem que nele há

Um princesa à venda

Que veio junto com seus súditos

Acorrentados em carros de boi"


Mostram como a riqueza de um antigo continente foi reduzida à uma forma humilhante, mas deixa espaço para otimismo quanto a uma mudança nos papéis, no refrão "Eu quero ver, quando Zumbi chegar! Zumbi é senhor das guerras, é senhor das demandas, quando Zumbi chega, é Zumbi quem manda!" Acompanhado de uma sublime orquestra e vocais poderosos, a música é um grito de liberdade.

Arriscando-se no idioma inglês, Jorge Ben Jor dá um nome tom a esse hino religioso em "Brother". "Jesus Christ is my lord, Jesus Christ is My Friend", reverbera Ben Jor. Agradece também, ao filho de Deus, pelos amigos, pelas flores e pela musica. Em "O Namorado da Viúva", supostamente escrita sobre Nicolau Flumel, que teria se casado três vezes com uma viúvia rica, Ben Jor mostra sua habilidade como Storyteller, por transcrever a história de uma forma que pode ser aplicada a cunho pessoal ou à algum conhecido com grande facilidade.




Em "Hermes Trismegisto e Sua Celeste Tábua de Esmeralda", Jorge retoma os temas esotéricos e sumariza da melhor forma possível os ensinamentos de Hermes:


"Hermes Trismegisto escreveu Com uma ponta de diamante em uma lâmina de esmeralda

O que está embaixo é como o que está no alto E o que está no alto é como o que está embaixo

E por essas coisas fazem-se os milagres de uma coisa só E como todas essas coisas são e provêm de um"


Essas palavras ainda são o centro de diversos debates, mas destacam pontos importantes: Os mesmos átomos e elementos usados na construção do universo, também constituem nosso planeta e às próprias criaturas vivas. O que seria, mesmo, um milagre? O que talvez nos aprece impossível, dadas as nossas limitações intelectuais e físicas, podem ser simples para O Todo-Poderoso Criador do universo.





A última faixa do disco é "Cinco Minutos", um dos grandes hits do disco e uma das faixas mais convencionais/pop do disco. Você pode escolher ver a música como uma mera canção sobre alguém que ficou chateado por que seu "broto" demorou e se atrasou, indo embora ou uma sútil crítica ao imediatismo moderno, o egocentrismo e a falta de empatia. Pode ser tudo isso e um pouco mais. Afinal, o grande trunfo de Ben Jor é ser simples, mas nunca banal.



"A Tábua e Esmeralda" é até hoje considerada a obra prima da carreira de Jorge Ben Jor, e está em 6° lugar na lista da Rolling Stones de melhores discos brasileiros de todos os tempos. Mesmo não tendo sido o maior êxito comercial da carreira do cantor, permanece como um atestado do incomparável talento de Ben Jor, como musicista e compositor, e marcou o início de sua fase experimental, conhecida como "Alquimia Musical". Falar sobre temas tão complexos de forma tão despretensiosa e simples, torna-o detentor de uma beleza ímpar. Com o esquecimento e a obscuridade à espreita, talvez o empreendimento mais duradouro e recompensador da humanidade seja o prazer hedônio; Se preocupar com a alquimia, a agricultura celeste ou nossa herança cósmica dos deuses astronautas é interessante, mas se enamorar de uma 'menina mulher da pele preta' ou 'torcer pelo mengão' talvez sejam felicidades mais tangíveis. No fim, o disco permanece como um monumento de incontestável e preciosa beleza.


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