Gal Costa - Cantar (1974)
- Bruno Fernandes

- 8 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 13 de abr. de 2020
Em 1974, Gal Costa ainda não havia sequer completado uma década de carreira, entretanto, é impressionante analisar a quantidade significativa de hits que havia acumulado e o impacto cultural que a mesma já havia gerado. Tanto é, que os trabalhos da cantora nesta fase são reverenciados até hoje, e 4 deles, incluindo o proprio Cantar, constam na lista da Rolling Stone Brasil de melhores discos nacionais de todos os tempos.
Produzido por seu grande amigo e parceiro, Caetano Veloso, e tendo direção do brilhante João Donato, o disco foi concebido após a série de shows "Temporada de Verão", que aconteceu na Bahia entre janeiro e fevereiro desse mesmo ano, em colaboração com Caetano Veloso e Gilberto Gil, onde a cantora deixaria gradativamente de lado a atitude rocker e referenciaria a bossa nova de seu disco de estreia, "Domingo" (1967), num prisma mais pop e moderno. A essa altura, Gal já havia passado por três grandes reinvenções: A versão feminina de João Gilberto (Domingo, 1967), a Tigresa (do autointitulado em 1969 até FaTal - Gal a Todo Vapor, 1971) e a Índia (1973), e Cantar reúne e unifica esses três alter egos num único disco e performance, encerrando seu período clássico em grande estilo. Sua capa conta com as fotografias de Tereza Eugênia, numa imagem do perfil da cantora, coberta pelos cabelos e com uma flor perdida entre eles.

O álbum começa com seu super hit "Barato Total", escrito por Gilberto Gil. Até hoje a música é faixa garantida nos shows da Gal, e conta com uma instrumental alegre e positiva, referenciando em parte a cultura hippie, sendo que virou uma faixa cult, por emoldurar a cultura dos anos 70 como uma verdadeira capsula do tempo. A música é um manifesto de positividade e liberdade, como reafirma o refrão:
"Quando a gente 'tá contente
Nem pensar que está contente
Nem pensar que está contente a gente quer
Nem pensar a gente quer
A gente quer, a gente quer
A gente quer é viver"
Em "A Rã", através a composição de Caetano, Gal referencia o trabalho de nomes como Vinícius de Moraes e Dorival Caymmi, bem como de certos aspectos da cultura baiana e indígena, numa faixa totalmente pop, moderna, e completamente bossa-novista. Destaque para a linha "Amanhecendo assim perto de mim, Perto da claridade da manhã".
A terceira faixa é "Lua, Lua, Lua, Lua", também de autoria de Veloso, e que futuramente complementaria seu disco "Jóia" (1975), cede o protagonismo para a interpretação incrivelmente bela de Gal, com sua voz suave, enquanto João Donato e Caetano compõem uma paisagem sonora com os violões e sons que remetem pulsares ou batidas de corações. Um dos momentos mais marcantes do disco.
Em seguida, a singela interlude "Canção Que Morre No Ar", têm Gal cantando uma música romântica e suave, vestida de uma orquestração digna do cinema clássico. Logo após, "Flor de Maracujá" é remanescente do período mais rocker de Gal, mas o teor da letra é totalmente pop, com versos como:
"Lá no avarandado
Na luz do meio dia
Um segredo nos teus olhos
Tanta coisa me dizia"
O otimismo e a emoção de paixões emolduram a letra da música como um verdadeiro quadro de amor juvenil.
Outra grande hit do disco é "Flor do Cerrado", onde Caetano transforma "Garota de Ipanema" na música incidental de uma espécie de presságio apocalíptico, com breves lances de esperança numa vida pós 1975, abandonando o rock e apostando nas sutilezas. Afinal de contas, o mundo já foi ameaçado de fim diversas vezes após esse ano, e como se é de esperar, a vida cotidiana permanece quase intacta. A voz de Gal brilha através de linhas como:
"Todo mundo sabe, você sabe
Que a cidade vai sumir por debaixo do mar
É a cidade que vai avançar e não o mar
Você não vê
Mas da próxima vez que eu for a Brasília
Eu trago uma flor do cerrado pra você"
Em "Jóia", Gal reitera o experimentalismo apresentado originalmente em "Gal" e "LeGal", predominantemente composta por percussão e camadas de vocais sobrepostos, falando sobre a relação do capitalismo com a sociedade da época. A balada ao piano "Até Quem Sabe" apela para o imediatismo e romantismo, ao descrever o fim de um relacionamento. Eventualmente, isso abriria caminho para a renovação artística de discos futuros como "Água Viva" e "Caras e Bocas".
A próxima música é "O Céu e o Som", onde Gal fala sobre a relação entre a música e a sua origem divina, a forma como a música vêm do "céu" e encontra o seu caminho na alma de todos nós, através do "Som", numa faixa com forte influência do soul, referenciando seu disco autointitulado de 1969. Seguida por "Lágrimas Negras", é uma faixa visceral, crua e triste, guiada pela voz de Gal e sua beleza ímpar, um baixo e uma guitarra, apostando no minimalismo. Destaque para a composição de Jorge Mautner e toda a sua riqueza poética em versos como:
"Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Belezas são coisas acesas por dentro"
"Na frente do cortejo o meu beijo
Muito forte como aço, meu abraço
São poços de petróleo a luz negra dos seus olhos"
Imprevisivelmente, Gal retorna para encerrar o disco com "Chululu", uma breve canção de ninar, conduzida por um piano, escrita por sua mãe, dividindo com o público a canção que muitas vezes a fez dormir.
O disco vendeu cerca de 100 mil cópias mundialmente, e foi o responsável por abrir caminho para nomes futuros da música brasileira, como Marisa Monte, SILVA e Vanessa da Matta.
"Cantar" encerra um capítulo ímpar e muito especial da carreira da Gal, por que, após ele, ela se aventuraria por diversos outros gêneros, ajudando a estabilizar a MPB clássica dos anos 80 ou explorando o new wave/synth pop da mesma década. Alegre e leve, o disco mostra uma Gal Costa tranqüila, após o vendaval tropicalista, que terminara com prisões, revolta e exílio dos amigos. Gal, que até então se apresentava séria, introspectiva, começa a mudar a performance e a cantar com um grande sorriso no rosto, que se tornaria sua marca registrada



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