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Caetano Veloso - Muito [Dentro da Estrela Azulada] (1978)

  • Foto do escritor: Bruno Fernandes
    Bruno Fernandes
  • 8 de abr. de 2020
  • 4 min de leitura

Hoje, Caetano Veloso é uma figura intocável da cultura brasileira, alguém da mais excelsa estatura dentro do constelação da música nacional, reconhecido não só pela vasta quantidade de hits que coleciona, mas por ser uma pessoa vanguardista e contribuir e encabeçar diversas inovações dentro do cenário e sociedade. Entretanto, até atingir esse lugar, como figura central, houve um longo caminho para percorrer, até que sua obra fosse reconhecida, e muitas das suas obras passaram a ser vistas como clássicos devido a passagem do tempo, apesar de inicial rejeição.


É exatamente assim que se dá com seu disco de 1978, Muito - Dentro da Estrela Azulada. Até hoje, não se entende plenamente o motivo de o disco não ter sido um sucesso absoluto de vendas. Chegando à casa das 30 mil cópias vendidas, num momento em que seus contemporâneos Chico Buarque e Maria Bethânia vendiam, respectivamente, 500 e 700 mil, ou mais. Muito se especula a respeito de sabotagem das rádios, e é notório que a imprensa, à época, choveu acidamente críticas pesadas a respeito do disco. Mas, como versa Salomão em Eclesiastes 7:8, "Melhor o fim de uma coisa do que seu começo."

O disco começa com "Terra". A música é uma homenagem ao próprio planeta, e também a terra natal do cantor, a Bahia, e traz diversas referências, históricas e científicas. Essencialmente acústica, a faixa encanta devido a sua crueza e exímia execução, com pequenos detalhes em, muito bem colocadas, percussões e instrumentos complementares. Tudo isso dá a música um ar de clássico desde a primeira audição. Apesar de as rádios terem boicotado a música, com seus quase 7 minutos, a música caminhou através da história devido à tradição oral, e é até hoje uma das canções mais características de Caetano.


Versos como os mostrados abaixo, calam fundo no coração de quem quer que já tenha vivido como estrangeiro ou esteja longe de seu lar:


"Terra! Terra!

Por mais distante

O errante navegante

Quem jamais te esqueceria?..."

Em "Tempo de Estio", Caetano entrega uma canção pop extremamente bem executada, com um frescor e tropicalidade irresistíveis. Conduzidas por um violão e bateria compassados, e um belíssimo piano para ornamentar a faixa, Veloso faz uma homenagem ao Rio de Janeiro e faz referências a diversas musas brasileiras da época. Através de linhas como "É o amor, É o calor, A cor da vida. É o verão, Meu coração, É a cidade", vemos um dos grandes compositores do século provar novamente que, por vezes, menos é mais. A terceira música, "Muito Romântico", conta com a voz de Caetano e o suporte de um grandioso coro, e dá uma nova vida a música de Roberto Carlos.

Em seguida, Caetano reinterpreta uma das canções de Tom Jobim, de quem o mesmo é um grande fã, emprestando a voz para "Eu Sei Que Vou Te Amar", num dos momentos mais sublimes do disco. Outro ponto alto do disco é a música "Muito", numa espécia de R&B/Jazz, muito bem executado, Veloso diz a que veio, se descortinando em versos como:


"Eu sempre quis muito

Mesmo que parecesse ser modesto

Juro que eu não presto"


"Eu nunca quis pouco

Falo de quantidade e intensidade

Bomba de hidrogênio

Luxo para todos, todos" Contentar-se com pouco, podendo ter "muito" é de fato uma tolice. Até onde a canção é alegórica ou autobiográfica é um mistério ainda. Mas, seja no amor ou nos negócios, Caetano nos lembra que não há recompensa na auto negligência.


Em "Sampa", um dos grandes hits de sua carreira, o cantor homenageia o estado de São Paulo, compartilhando conosco suas primeiras impressões da cidade e suas ponderações sobre a mesma, de forma bem similar ao hit de 1968 de Tom Zé, "São São Paulo". A música nos convida a refletir sobre o belo e o feio da cidade, através de linhas como:


"Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas

Da força da grana que ergue e destrói coisas belas

Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas

Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços

Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba"


Mas afinal, tudo se relega a impressão de Veloso, que, como ele mesmo diz "É que Narciso acha feio o que não é espelho".

A melodia alegre e suave de "Love, Love, Love" é um dos ápices do disco, sendo uma das faixas mais pop da carreira de Caetano. De ritmo tropical e sutil, caso tivesse entrado nas programações das rádios, poderia facilmente ser um outro grande hit de Caetano. Em seguida, "Cá-Já" e seus 6 minutos nos apresentam um dos momentos mais belos do disco, numa espécie de rock progressivo, lento e arrastado, com ênfase no piano, baixo e bateria, a música desvela-se através da melancolia e desesperança. Através de um trocadilho baseado na fruta "Cajá", Veloso fala sobre imediatismo, sobre querermos a vida e a felicidade cá já, aqui e agora.

O disco se encerra com a minimalista "Eu Te Amo", uma singela, porém consistente, balada. Somos deixados à sós com Caetano e um piano. "Eu nunca te disse, Não tem onde caiba, Eu te amo", canta Veloso. Talvez, uma das faixas mais "overlooked" do repertório de Caetano, mas que poderia ter sido um grande sucesso, caso fosse entregue à Gal Costa, por exemplo.

Outro detalhe do disco está em sua capa, com uma fotografia de Caetano e sua mãe, Dona Canô, dentro de uma representação da terra, dando ao disco o charme de familiaridade/intimidade, que àquela altura, Caetano e seu público já usufruíam.

Diferente do que tudo que se esperava, "Muito" resistiu a prova do tempo e continua sendo até hoje um dos discos mais reverenciados de Caetano e um dos preferidos dos fãs, tendo "Terra" e "Sampa" sempre nos repertórios dos shows e sendo hits conhecidos por todo o país. E, assim como mencionei na minha carta de apresentação, é um dos casos mais práticos de como a grande crítica peca, gravemente, diversas vezes e não oferece retratação. Felizmente, para Caetano, o tempo acabou por dar a melhor resposta.


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